Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias
 

Comer com Lula, Cristina e Lugo... tem preço

     Participar de um jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva custa US$ 150 a mais do que compartilhar uma refeição com a presidente argentina, Cristina Kirchner, ou com o mandatário colombiano, Alvaro Uribe. Se o convidado de honra for o novo governante paraguaio, Fernando Lugo, o almoço pode ficar de US$ 250 a US$ 300 mais em conta.

     O cardápio faz parte de uma semana de encontros do Conselho das Américas, organização empresarial que promove investimentos na região, com presidentes latino-americanos. O venezuelano Hugo Chávez não participa do evento.

     Além de ser o mais caro, o encontro com o presidente Lula inaugura o evento, no dia 22, no hotel Waldorf Astoria, em Nova York, e é o único que acontece na hora do jantar. O encontro com o brasileiro custará US$ 400 para sócios do Conselho e US$ 550 para não-associados.

     O almoço com a presidente argentina sai por US$ 250 e US$ 400, mesmo valor cobrado para a refeição com Uribe. Lugo vale US$ 150 para sócios e US$ 250 para não-sócios, segundo as tarifas estipuladas pelo Conselho. As inscrições são feitas pela internet na página da organização.

     Os presidentes se encontrarão em Nova York para a Assembléia Anual da ONU, que também acontece neste mês. O Conselho aproveita a ocasião para organizar encontros com os mandatários, que apresentam oportunidades de investimentos em seus países.

     Outras lideranças políticas e econômicas também costumam ser convidadas para os encontros da associação. Em conferência no fim do ano passado, o senador e ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) afirmou que a compra de armas pela Venezuela poderia gerar uma “corrida armamentista”.

     Já Alvaro Uribe, em discurso a empresários do grupo, atacou “as ditaduras na América Latina que não aceitam a supervisão internacional”.
Em maio de 2006, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) afirmou, frente ao Conselho, que era preciso fazer “uma grande campanha negativa” contra Lula, às vésperas da eleição presidencial.

Escrito por Adriana Küchler às 22h36

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No meio do caminho havia um piquete...

     Há até pouco menos de um ano, Argentina e Uruguai estavam brigados (ou peleados) pela instalação da papeleira finlandesa Botnia às margens do rio Uruguai. Ambientalistas argentinos dizem que a empresa, instalada no vizinho, polui o rio, cujas águas os dois países compartilham.

     O conflito entre os governos já esfriou há tempos, mas desde novembro de 2006, legisladores de Gualeguaychu, do lado argentino, mantêm um piquete que bloqueia a ponte que liga a cidade a Fray Bentos, onde está instalada a empresa, já no Uruguai.

     Pois na semana passada, um advogado virou notícia por ser o primeiro argentino a cruzar a ponte em quase dois anos. Como? Com uma autorização judicial. Salvador Rossetti, casado com uma uruguaia, alegou que tinha que visitar a sogra doente do outro lado do rio e ganhou o direito de furar o piquete.

     O advogado não se mostrou muito preocupado pela possível contaminação da fábrica de celulose. "Talvez a fábrica contamine, mas não me consta. O que me conta é que os defensores ecologistas desse piquete não dizem nada a respeito da contaminação dos agroquímicos da soja", disse Rossetti.

     Talvez agora Gualeguaychu perca um pouco de sua força como capital nacional do piquete. Além de sediar o manifesto "non-stop" contra a Botnia, a cidade também foi o chamado "núcleo duro" dos bloqueios de estrada durante o protesto agropecuário contra o governo da presidente Cristina Kirchner.

 

 Manifestantes protestam contra a instalação da papeleira Botnia no Uruguai em 2007

 Foto: http://evangelina-carrozo.blogspot.com/ (Evangelina Carrozo é ativista anti-papeleiras, modelo e dançarina; fez um protesto contra as papeleiras, seminua, durante a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América Latina, do Caribe e da União Européia em Viena em 2006 e também participou do programa "Patinando por um Sonho")

 

Escrito por Adriana Küchler às 01h11

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Por estatísticas mais confiáveis

     O Indec, o IBGE argentino, sofre intervenção do governo desde o início do ano passado. Desde então, as estatísticas divulgadas pelo órgão, principalmente a inflação, estão sob suspeita.

     A inflação divulgada pelo Indec é, em geral, três vezes menor do que a prevista por consultorias privadas e outras tantas do que sente o bolso da população, segundo diferentes pesquisas.

     Desde então, o pedido por estatísticas mais confiáveis veio de funcionários do próprio instituto, da oposição, de economistas, do FMI e, recentemente, até de políticos governistas. Um grupo de trabalhadores do Indec decidiu então que era tanta gente reclamando que poderia ser possível juntar um milhão de assinaturas para um protesto mais efetivo.

     Com as assinaturas, que são feitas no site www.ateindec.org.ar, pretendem conseguir o fim da intervenção no órgão e também garantir o próprio bolso já que muitos salários são reajustados pela inflação. Em pouco mais de um dia, os trabalhadores conseguiram 3.000 adesões ao seu piquete virtual.

 

Escrito por Adriana Küchler às 18h18

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Ícones argentinos

E agora matéria publicada na Folha de hoje sobre a polêmica em torno de quem serão os ícones argentinos na Feira de Frankfurt em 2010.

Evita e Che causam ira na Argentina

Escritores reagem à escolha de nomes da política, além de Maradona, para representar a nação em feira literária

Após polêmica, comissão inclui Borges e Cortázar entre os ícones argentinos; país será homenageado em Frankfurt em 2010

ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Que Maradona, Evita, Carlos Gardel e Che Guevara são ídolos argentinos ninguém duvida. Mas a escolha deles como ícones para representar o país na Feira de Frankfurt, um dos principais eventos editoriais do planeta, gerou polêmica no mundo literário argentino.

Enquanto o país começava a se preparar para ser homenageado na feira de 2010, ano do bicentenário de sua independência, a informação de que quatro ícones não-literários simbolizariam a Argentina no evento vazou e despertou a ira de muitos escritores.

"É desperdiçar a oportunidade de uma enorme vitrine para a literatura argentina, para que nossos livros sejam comprados e traduzidos. Parece que o governo confundiu uma feira literária com um evento cultural", disse à Folha o presidente da Academia Argentina de Letras, Pedro Luis Barcia. "É como se o Brasil escolhesse Pelé e João Gilberto no lugar de Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ou como se pedíssemos a Messi para entrar na Olimpíada com uma foto de Borges. Estão misturando as coisas", afirmou.

Quando o tango já estava armado, o comitê organizador da representação argentina decidiu agregar à lista o escritor Jorge Luis Borges, ícone mais conhecido da literatura local. Depois, a presidente Cristina Kirchner sugeriu a inclusão de outro autor, Julio Cortázar. O time argentino passou então a ser integrado por seis ícones, dois deles literários.

A decisão, no entanto, não acalmou os ânimos dos escritores. "Querem levar como estepe a Frankfurt ninguém menos que o grande mestre da literatura do século 20", disse o escritor Marcos Aguinis, em referência a Borges, após a convocação dos novos ícones.

O autor de "O Atroz Encanto de Ser Argentino" afirmou que teme que a apresentação argentina seja motivo de piada no mundo editorial. "Não tiveram a inteligência de promover um escritor vivo. Com a eleição, mostram a pouca importância que dão para a literatura", diz. "É lamentável que o populismo se alie à ignorância para produzir um resultado catastrófico."

A embaixadora Magdalena Faillace, responsável pela comissão organizadora da participação argentina, afirma que a primeira lista oficial tinha mesmo apenas os quatro ícones populares, mas que os autores já haviam sido agregados há meses, e não após a polêmica. Ainda assim, defende a postura do governo de fazer uma apresentação mais eclética.

"Sabemos que os quatro não foram autores, apesar de que Che e Eva escreveram livros. Mas, com esses ícones, queremos simbolizar distintos aspectos da vida argentina", diz.

"Quando a Espanha foi homenageada, reproduziu em seu espaço o local de uma corrida de touros. Não há uma norma. Cada país leva à feira o que quer que o mundo conheça."

A Argentina quer então apresentar ao mundo um pot-pourri de atividades. Segundo a embaixadora, o estande na feira terá um labirinto, em referência à obra de Borges, uma exposição dedicada a escritores desaparecidos durante a ditadura militar e um local destinado à ciência e à tecnologia, em que o país se mostrará produtor de alimentos e de energia.

Evita, um dos ícones escolhidos pelo governo para vender a argentinidade em Frankfurt

Foto: region.com.ar

Escrito por Adriana Küchler às 12h03

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Cozinhando política

Abaixo matéria publicada ontem na Folha sobre o curso de culinária promovido por Hebe de Bonafini, a líder das Mães da Praça de Maio.

Líder das Mães da Praça de Maio leva política à cozinha

Hebe de Bonafini ministra há um mês aulas em que mistura culinária com comentários críticos a adversários dos Kirchner

"Nos alteramos porque a 4ª Frota vem rastrear nossas costas, mas ignoramos quando se metem em nossos estômagos", diz


Cézaro de Luca -31.jan.08/Efe
Hebe de Bonafini lidera as Mães da Praça de Maio em um protesto; nas horas vagas, ela cozinha

ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Sem o glamour de Jamie Oliver, a tradição da maravilhosa Ofélia e a ternura de Dona Benta, uma senhora argentina vem ganhando espaço no mundo das aulas de culinária. O convite para o curso já mostra que sua proposta é diferente.

"Às vezes, nos alteramos porque vem a Quarta Frota dos EUA rastrear nossos rios e costas, mas ignoramos quando se metem em nossas cozinhas, em nossos estômagos, em nossas casas." É assim que Hebe de Bonafini, 80, histórica líder da Associação Mães da Praça de Maio, pretende angariar alunos para o curso "Cozinhando Política", em que começou, há quatro semanas, a promover suas receitas socialistas para expulsar o capitalismo da cozinha, com pratos acessíveis ao bolso.

A aula é filmada como em qualquer programa de culinária, mas o cenário é histórico: a cozinha é improvisada em uma sala de aula da antiga Esma (Escola de Mecânica da Marinha), principal centro de tortura da última ditadura argentina (1976-1983), hoje convertido em museu e espaço cultural.

Com Bonafini, não podia ser diferente. Líder da entidade que reúne mães de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura desde 1979, ela teve dois filhos e uma nora desaparecidos no regime militar.

Após anos de oposição a diferentes governos, se tornou uma das principais figuras de apoio da gestão do ex-presidente Néstor Kirchner e da de sua mulher e atual mandatária, Cristina, que tem como bandeira política a punição dos crimes da ditadura.

Ela defende o presidente venezuelano, Hugo Chávez, ataca o americano George W.Bush, e até Lula, admirado na Argentina, é alvo de sua língua ferina. Disse certa vez que o brasileiro fez um "pacto com o diabo". No caldeirão de Hebe de Bonafini, a política sempre mete a colher.

Nas primeiras aulas, teóricas, a "mãe" discutiu as origens do McDonald's e leu um texto do uruguaio Eduardo Galeano que fala da "globalização do hambúrguer, da ditadura da fast food". Na última aula, em que a Folha ocupou um dos bancos, não faltaram críticas ao prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, rival dos Kirchner, e ao setor ruralista, que protagonizou um conflito de quatro meses com o governo de Cristina.

Duas alunas, professoras de escolas públicas, reclamam que a comida servida nos colégios é horrível. "Mas também com o Macri no governo... Só quer saber de encher de gente [as escolas], sem condições. Por isso, ninguém mais vai votar nele", sentencia Bonafini.

O prato do dia é um guisado de cevada perolada, carne e legumes, cozinhado com panelas e utensílios doados pelos alunos. Enquanto prepara a refeição, com avental e sem o típico lenço que caracteriza as mães da praça, a chef reclama do preço dos cereais. "Todos estão muito caros", resmunga.

"É o campo! É o campo!", repetem os alunos, seguidores de Bonafini, que chama os líderes ruralistas de golpistas e os acusa de serem responsáveis pelas desaparições do regime militar.

Entre os alunos está Marcos da Silva, um jardineiro brasileiro que vive há 20 anos na Argentina. E também Daniel Ballester, um jornalista argentino que se exilou no Brasil durante a ditadura e que tinha como principais passatempos em Florianópolis, onde vivia, comer quibe e ler a Folha.
Depois de repartir a comida e saciar o apetite dos cerca de 30 "estudantes", Bonafini quer relaxar. Toma o vinho doado por um aluno, não sem antes criticar. "O que é isso? Vinho de missa?"

Escrito por Adriana Küchler às 11h53

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PERFIL

Adriana Küchler Adriana Küchler, 27, é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e repórter da Folha há três anos. Morou no Rio, em Florianópolis e em São Paulo, antes de aterrissar em Buenos Aires..

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