Calma, mercado!
"A Argentina vai cumprir com todo e cada um de seus compromissos financeiros." O anúncio "acalma-mercados" foi feito ontem pelo chefe-de-gabinete, Sergio Massa, na reunião do Conselho das Américas, entidade que reúne empresários do continente.
Em seu discurso, o principal porta-voz do governo argentino afirmou que foi procurado por vários empresários que queriam saber se o país poderia pagar os vencimentos da dívida neste e no próximo ano. "A Argentina é amigável para aqueles que querem investir", afirmou.
Nas últimas semanas, o país recebeu uma série de notícias que alertavam para o risco de que não pudesse pagar suas dívidas: teve notas rebaixadas por duas agências de classificação de risco e bancos de investimentos alertaram seus clientes para o risco de um novo default no país. Em 2001, o país entrou em uma grave crise política e econômica e declarou o default, que afastou os credores internacionais.
Segundo o chefe-de-gabinete, o país está mal na foto, mas bem nos números. "Proponho um exercício. Se mostrarmos só os números da macroeconomia de dez países da região, sem os nomes, na hora de escolher em quem investir, garanto que a Argentina estará entre os três primeiros."
Massa negou o boato de que a Argentina reabriria a negociação da dívida para os credores que não aceitaram renegociar seus títulos em 2005. "Não temos nenhuma oferta para fazer aos donos de títulos."
No encontro, o presidente do Banco Central argentino, Martín Redrado, também tentou afugentar o fantasma do default e afirmou que as dúvidas sobre a capacidade do país de pagar suas dívidas "são infundadas" e que a Argentina tem "bolsões de liquidez", fruto da economia fiscal dos últimos anos.
Do encontro do Conselho das Américas participou também o subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental dos EUA, Thomas Shannon, que, entre outras missões, teria vindo ajudar a Argentina a retomar as negociações com o Clube de Paris.
O país tem uma dívida de US$ 6,5 bilhões com o Clube (formado por nações credoras internacionais), que impede a obtenção de financiamentos estrangeiros. Para aceitar parcelar o pagamento, o clube exige que a Argentina se submeta a uma auditoria do FMI, a que o governo resiste. Shannon já se ofereceu como intermediário na busca de um consenso com o FMI e com o Clube.
Na segunda-feira, os argentinos receberam mais uma nota negativa, desta vez do Banco Central da Espanha. Segundo a entidade, a Argentina faz parte de um grupo de países com "risco elevado" para investimentos, junto com Venezuela, Cuba e Irã e Camarões.
O informe foi desprezado pela presidente Cristina Kirchner, que afirmou que o mesmo banco previa boas perspectivas para o futuro às vésperas de crise argentina de 2001. "As previsões econômicas não são o forte das pessoas que fazem esse tipo de análise", afirmou.

Sergio Massa garante que acabou a época do "nós não vamos pagar nada"
Foto: Anses.gov.ar
Escrito por Adriana Küchler às 18h50
Que vês quando me vês?
Que os argentinos têm uma visão cada vez mais positiva (e às vezes até invejosa) do Brasil qualquer brasileiro que vive aqui já sabe. A novidade é que uma pesquisa encomendada pelo próprio governo brasileiro comprova a prática na teoria. Abaixo, texto em que Fernando Rodrigues revela detalhes da pesquisa, publicado na Folha de domingo.
Argentina admira Brasil, mas não o Mercosul
Pesquisa encomendada pelo governo Lula revela visão positiva de vizinhos a respeito da economia e "organização" do país
Argentinos vêem bloco do Cone Sul com desconfiança; para 62% deles, brasileiros lucrarão mais com aliança; na cultura, música é o elo
FERNANDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Se o assunto é futebol, argentinos e brasileiros comportam-se como inimigos irreconciliáveis. Mas quando o tema é a relação formal entre os dois países, os vizinhos ao sul do rio da Prata têm uma visão muito mais positiva e generosa.
Para 62% dos argentinos, a relação entre Brasil e Argentina deve ser a de "sócios" (33%), "amigos" (19%) ou de "irmãos" (10%). Esses são alguns dos percentuais da uma pesquisa realizada pela consultoria Graciela Römer & Associados.
O governo brasileiro contratou o levantamento, que ficou pronto em maio, mas permanecia inédito para o público até agora. Foram ouvidas 848 pessoas, e a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.
Para quem se fia apenas nos estereótipos de antipatia mútua, a pesquisa é uma grande surpresa. A visão dos argentinos é amplamente favorável ao Brasil, talvez pelo fato de as economias dos dois países estarem hoje em situações opostas.
Para 59% dos argentinos, a economia brasileira está bem ou muito bem. Há dez anos, só 15% responderam dessa forma.
Hoje os argentinos também parecem muito mais bem informados sobre o outro lado da fronteira. Em 1998, quando indagados sobre economia brasileira, 38% não sabiam opinar. Hoje, são só 14%.
A Espanha aparece como o país preferencial para o estreitamento de relações (29%), mas o Brasil vem logo atrás (24%), bem à frente dos EUA (12%). O interesse pela cultura brasileira é preponderante quando o assunto é música (37%). Telenovelas vêm em segundo lugar, com 10%. Já a literatura do Brasil interessa só a 6% dos argentinos.
Bagunça
A pesquisa teve grupos de análise qualitativa, com entrevistas. Os brasileiros são descritos como estando no meio do caminho entre os chilenos ("que respeitam muito a lei") e os argentinos ("desorganizados" e "que pensam em si próprios"). Outra conclusão: o Brasil é um país organizado, embora não seja necessariamente uma sociedade organizada. Os chilenos o são nos dois sentidos. Os argentinos, em "nenhum deles".
O levantamento captou a histórica percepção de que existem "dois Brasis", um desenvolvido e rico e outro atrasado e pobre. Não por acaso, os maiores problemas apontados pelos argentinos são a pobreza (45%) e a violência (23%).
Há dez anos, as mesmas respostas encabeçavam a lista, mas a pobreza era apontada por 64% dos entrevistados. A violência ficou no mesmo patamar. E surgiu outro vilão, o narcotráfico, antes ignorado como problema do Brasil pelos vizinhos e agora citado por 18%.
A pesquisa desmonta um senso comum no Brasil: a idéia de que brasileiros na Argentina entendem mais espanhol do que os argentinos compreendem português. Segundo o levantamento, a percepção dos vizinhos é o oposto.
Eis uma frase captada em um grupo de discussão e usada no relatório para sintetizar o sentimento argentino: "Eu estava pensando no nacionalismo dos brasileiros. Quando eles vêm, nós nos esforçamos para aprender sua língua. Quando vamos lá, eles não fazem isso".
Essa percepção foi interpretada na pesquisa como sendo uma atitude de certa arrogância por parte dos brasileiros e "um sinal de que a Argentina é irrelevante para o Brasil".
No campo lingüístico, 90% dos argentinos acreditam que o idioma mais relevante para ser aprendido é o inglês. Só 5% citam o português.
O levantamento foi concluído antes do fracasso da Rodada Doha, cujo objetivo era liberalizar o comércio no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio). No final das negociações, a delegação brasileira abandonou uma posição de solidariedade total com alguns países, incluindo a Argentina, para apoiar uma saída negociada com nações ricas.
Mesmo sem captar a má reação argentina ao desfecho da Rodada Doha -a mídia portenha classificou o Brasil como traidor-, a pesquisa aponta uma desconfiança crescente dos vizinhos em relação aos benefícios do Mercosul.
Há dez anos, 40% dos argentinos acreditavam que o maior beneficiário do pacto dos países do Cone Sul seria o Brasil. Hoje, o percentual subiu ainda mais para expressivos 62%. Só 4,5% acreditam que a Argentina será a que mais vai lucrar com a aliança.

Escrito por Adriana Küchler às 00h27
Toca Charly
Charly García é um dos músicos mais famosos da Argentina. O roqueiro fez parte de projetos que fizeram a história do rock nacional, como o Sui Generis e o Serú Girán, chamado por alguns de "os beatles argentinos".
Pois o veterano músico de 56 anos comove a Argentina recentemente não só com a sua música, mas com seu drama pessoal. Está internado em uma clínica para se recuperar da dependência de drogas depois de destruir quartos de hotel e de ser levado direto do palco de um show para o hospital. Charly está mal, mas é do tipo vaso ruim: em 2000, se jogou do nono andar de um hotel em uma piscina e está aí para contar a história.
Então os fãs, ou aliados, como Charly os chama inventaram uma maneira de apoiar o ídolo. Hoje, às 21h em ponto realizam um piquete musical. A ordem é tocar uma música de Charly onde quer que se esteja. Há fãs na frente da clínica onde o pop star está internado para ver se ele mesmo vai se unir à iniciativa.
Se quiser participar, toque o vídeo abaixo em alguns minutos.
E veja o mergulho de Charly...
Escrito por Adriana Küchler às 20h47
Quer feriado? Quando?
Os brasileiros, com a fama de malandros que têm, costumam achar que são os reis do feriado. No entanto, aqui na Argentina, não só existem tantos feriados quanto no Brasil, como também o governo decide mudar descaradamente os dias dos feriados para garantir um feriadão e a alegria geral da nação.
Desde que cheguei aqui, foram ao menos dois. Na semana passada, trocaram o feriado do dia 17 de agosto, quando se lembra a morte do general San Martín (herói da independência), para o dia seguinte. Assim, o feriado caía na segunda e todo mundo podia viajar e adiar em um dia o megaengarrafamento da estrada na volta.
Agora, a nova invenção do governo é que o dia 12 de outubro deve cair sempre às segundas-feiras. Isso mesmo. Se o chamado feriado do Dia da Raça (que lembra o descobrimento da América) cair sábado ou domingo, pula pra próxima segunda. Se cair terça ou quarta, volta um ou dois dias. Se cair quinta ou sexta, adia para a semana seguinte.
O projeto, que deve ser votado pelo Congresso, tem o objetivo de estimular o turismo interno e facilitar o planejamento dos viajantes argentinos. Se for aprovado, o próximo dia 12 de outubro por aqui será no dia 13.

Se os planos do governo derem certo, no próximo dia 13 de outubro, as estradas argentinas estarão movimentadas pelo feriado do dia 12
Escrito por Adriana Küchler às 20h10

