O golpe da bolsa
Desde que cheguei aqui, já haviam me avisado. Em geral, não é preciso andar com medo pelas ruas de Buenos Aires. É raro ouvir histórias de gente que foi assaltada com arma e com ameaça. O roubo mais comum aqui é o do gatuno de mão leve. Quando você viu, já foi.
Pois mesmo com todos os avisos, caí essa semana no golpe da bolsa. Deixei pendurada no encosto da cadeira do restaurante e, quando fui pagar a conta, cadê a bolsa? Estava almoçando com duas amigas correspondentes. Ninguém viu ou sentiu nada. Por sorte, como me avisaram que aconteceria, no fim do dia a bolsa surgiu no lixo do banheiro de outro restaurante, sem dinheiro nem meus aparatos tecnológicos, é claro, mas pelo menos com todos os documentos, minha agenda e os bloquinhos com apurações de matérias.
No mesmo segundo, caíram enxurradas de histórias iguais a essa no meu colo. Uma amiga foi furtada duas vezes da mesma maneira. De outra, com a bolsa, levaram até o passaporte. Apesar de todo o aparato de segurança que a cerca, até de uma das filhas de George W. Bush levaram a bolsa em um restaurante de San Telmo, há cerca de dois anos, criando um certo incidente diplomático.
Um amigo correspondente conta que no ano passado inteiro foram registrados cerca de 1.100 furtos a brasileiros dessa maneira por aqui. Em 2008, só no que vai do ano até agora, já passaram de mil. A cara de "lá vem mais um", quando cheguei a uma delegacia do centro da cidade para fazer o boletim de ocorrência, dá a entender que somos praticamente um alvo pros mão-leve.
Que fique registrado aqui mais uma vez que esse é um relato de um fato que costuma acontecer por aqui. No estilo, quem avisa amigo é. Buenos Aires, em geral, não é perigosa. Para quem já foi assaltada com arma e ameaça em São Paulo, os ladrões daqui, que deixam a sua bolsa com os documentos no restaurante ao lado, quase parecem simpáticos.
Apesar de todo o aparato de segurança do papai, Barbara Bush, que devia ter muito mais dólares na carteira, também teve sua bolsa furtada em Buenos Aires
Escrito por Adriana Küchler às 21h21
Filhinha do papai Kirchner
Aí vai um texto que devia ser publicado no jornal, mas caducou. É sobre a princesinha do casal Kirchner, Florencia. Perdoem algumas desatualizações, mas depois que escrevi o texto, Flor K comemorou seu 18º aniversário com brilho e circunstância no mesmo salão da Quinta de Olivos, a residência presidencial, onde Cristina deu, no último sábado, a sua primeira coletiva de imprensa. Não atualizei a notícia por algumas razões que ficarão claras para quem tiver paciência de ler até o fim.

Talvez Cristina Kirchner tenha decidido acabar com todos os fotologs da filha porque não podia admitir que alguém chamasse mais atenção do que ela. Afinal, como competir com uma garota rebelde, que pega metrô de microssaia, enche a cara com as amigas, fala mal do país, registra tudo na internet e... é filha da presidente e do ex-presidente da Argentina. Censura nela!
Florencia, 17, filha de Cristina e de Néstor Kirchner tinha um fotolog, que, assim como o tango, a carne e o Maradona, era uma paixão nacional. Disputava com a inflação e com a falta de gás o privilégio de quem tirava mais o sono do casal presidencial. A cada reclamação dos pais para que parasse de expor sua vida em público, fingia que consentia. E trocava o blog de nome e endereço.
A mídia local ia à loucura -e até a revista americana “Time” e o jornal britânico “The Guardian” renderam graças à jovem celebridade argentina-, mas perdeu agora uma das poucas fechaduras por onde bisbilhotar a vida íntima da família presidencial. O casal K não é nada chegado na imprensa. O irmão, Máximo, é um gordinho chato, careta e militante. À filha, cabia o papel de tornar um pouco pública a vida privada da família.
As fotos de Flor agora estão trancafiadas no Facebook, uma comunidade de relacionamentos on-line elitizada como uma primeira-filha merece. Essa correspondente se arriscou a pedir para ser sua amiga, mas foi esnobada pela garota.
Florencia segue a lei dos Kirchner: não dá entrevistas. Mas, se nenhum jornalista conseguiu a façanha de registrar as sapequices dela pessoalmente, a garota se encarregou de publicar uma auto-entrevista para sossegar a curiosidade geral da nação. E, em um dos fotologs, expôs o seu perfil: nascida na cidade de Rio Gallegos, em 6 de julho de 1990, uma canceriana solteira, “histérica e caprichosa”, em suas próprias palavras. Dona de três cachorros, gosta de cerejas e sorvete de menta e não perdoa a mentira e a infidelidade. O país preferido? “Argentina, eu acho.” O programa de TV predileto? “Celebrities Uncensored”, programa do canal E! que mostrava celebridades flagradas em cenas da vida real.
O que você quer?
“Às vezes, eu entro no quarto onde ela está com as amigas e ela me diz ‘o que você quer?’ e me pede que saia. Eu tenho que ir porque ela se irrita”, confessou a presidente, quando ainda era primeira-dama, a sua biógrafa Olga Wornat. A princesa Florencia deve ser a única pessoa capaz de amolecer o discurso duro de Cristina, conhecida por sua soberba. “Eu a adoro, mas tem um caráter difícil. Às vezes, discutimos muito, ela me desafia e compete comigo.”
Compete também pelo coração do pai. “Ela é louca por Kirchner, que lhe faz todas as vontades. E eu me irrito com ele porque deixa ela mal-acostumada. Mas morro se sentir que eles gostam mais do pai do que de mim”, despejou Cristina em um inédito momento de humildade e exposição sentimental.
Para conter os ímpetos da moça, o casal acaba de presenteá-la com um Mini Cooper, carro que é releitura de um modelo dos anos 60, custa cerca de US$ 40 mil e é hit entre famosos argentinos, como Maradona. Ela, que ainda não tem idade para dirigir, agora trocou os passeios num carrinho de golfe pelo carrão que aprende a conduzir nos jardins de Olivos, a mansão onde vive.
Para provar que não é mesmo flor que se cheire, durante as férias, na badalada praia de Pinamar, Florencia trocava o dia pela noite e deixava os seguranças plantados do lado de fora enquanto se jogava nas pistas do clube Ku. “Não gosto que me sigam, loco”, era o sinal da garota para que os capangas ficassem distantes. Na saída, era só chamar e lá estavam eles para protegê-la.
A fama de rebelde fez com que ela recebesse um convite inusitado recentemente. Cristina deve ter se mordido de inveja. Mas, quando perguntaram ao apresentador do programa de maior ibope na Argentina, o “Bailando por un Sueño” (a versão portenha da “Dança dos Famosos” do Faustão), quem era a mulher poderosa que ele mais desejaria ter em seu baile, não teve pra “presidenta”: deu Florencia na cabeça.

Escrito por Adriana Küchler às 20h17
Lula lá! E Chávez aqui!
Ninguém entendeu bem por que, mas o venezuelano Hugo Chávez apareceu de surpresa na reunião entre Lula e a presidente argentina Cristina Kirchner na última segunda-feira.
Hipóteses não faltaram. As que fizeram mais sucesso na bolsa de especulações jornalísticas foram:
1- que Cristina teria convidado Chávez para se vingar pelo fato de o Brasil ter "traído" a Argentina na Rodada Doha (essa um jornalista me contou que ouviu da boca do porta-voz mudo de Cristina)
2- que Cristina teria convidado Chávez para não deixar Lula brilhar demais. Na Argentina, nosso presidente tem o triplo da popularidade da sua colega
3- que Chávez teria aparecido para marcar presença e não deixar Cristina se aproximar demais da área de influência do brasileiro. A Argentina, como mostra o artigo de Clóvis Rossi de hoje, fica no meio do caminho dos dois países. Para garantir o carinho de Cristina, Chávez comprou ontem mais US$ 1 bilhão em bônus argentinos (mas a altas taxas de juros)
4- que Chávez veio porque gosta de incomodar, que Lula ficou p. da vida e por isso foi embora sem falar com a imprensa, que ficou chupando dedo...
Se ninguém conseguiu provar ao certo que teoria era a certa (talvez houvesse uma quinta opção), o certo é que Chávez incomodou.
Incomodou os outros presidentes, anunciando que queria retomar o projeto do gasoduto e até criar uma companhia aérea do sul -projetos que nenhum dos outros presidentes anunciou, mas que foi notícia por aqui enfraquecendo o peso da missão empresarial que Lula trouxe ao país.
Incomodou os fotógrafos que, depois de perseguir Lula durante horas, não puderam fazer a foto dos três mosqueteiros e perderam a capa do jornal do dia seguinte.
E incomodou o cerimonial do Palácio San Martín, o lindo edifício-sede da chancelaria argentina, onde Cristina recebeu Lula, os empresários e o venezuelano-surpresa. Se os jornalistas estavam ansiosos para saber se Chávez chegaria a tempo de encontrar com Lula, mais ansioso estava um funcionário do cerimonial, que tinha como função preparar um evento organizado e bem-planejado: "Se o Chávez chegar, eu me mato", disse o coitado. Nos próximos dias, aviso se houve alguma baixa no quadro de funcionários do San Martín.

Lula, Cristina e Chávez, a imagem que os fotógrafos foram embora sem registrar (a foto é oficial)
Escrito por Adriana Küchler às 21h14
Fala, Cristina!
A presidente Cristina Kirchner concedeu ontem sua primeira entrevista coletiva à imprensa. Fato um tanto comum no Brasil, a coletiva foi vista como um grande evento pelos argentinos, que não presenciavam uma há pelo menos cinco anos. O marido de Cristina, o ex-presidente Néstor Kirchner, tampouco deu entrevistas em seus mais de quatro anos no poder.
Tivemos ontem a chance de entrar na residência presidencial, a Quinta de Olivos, de brincar com Catalina, a cadela boxer de Néstor, e de ver os jornalistas argentinos desesperados combinando suas perguntas, para não perder a grande chance. Afinal, quando perguntaram se Cristina daria coletivas mais freqüentes, quem sabe semanais, a presidente respondeu "No, it's too much".
Os jornais locais destacaram também a atuação do porta-voz da presidência, Miguel Nuñez, conhecido como o porta-voz mudo, já que nunca fala com a imprensa. Dessa vez, ele coordenou toda a entrevista, mas, no começo, teve de se apresentar, já que muitos ali nem sabiam quem ele era.
Cristina parecia preparada para responder qualquer tipo de pergunta. Conta o jornal "La Nación" que foi o analista político Ricardo Rouvier quem comandou a preparação. Orientou a presidentA (como ela insiste em ser chamada) a mudar de atitude, a "recuperar a serenidade" e a olhar nos olhos do jornalista que lhe fazia perguntas.
Soltou algumas ironias, como boa Kirchner que é, respondeu a uma pergunta com um "não, obrigada", reafirmou toda e cada uma de suas opiniões, mas ainda assim os jornalistas saíram de lá felizes, na esperança de não ter que esperar mais cinco anos por outra dessas.
Na 1ª entrevista, Cristina nega crise no país
Presidente argentina afirma que não errou durante conflito com campo, mas decisão de falar à imprensa marca novo tom
Divergências com o Brasil em Doha se devem a atraso industrial argentino e os dois países ainda podem ter proposta comum, diz ela
ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES
Na primeira entrevista coletiva de um presidente argentino em ao menos cinco anos, a mandatária Cristina Kirchner negou que o país enfrente uma crise e disse não ter qualquer tipo de arrependimento em relação à posição do governo durante os quatro meses de conflito com o setor agropecuário.
"Voltaria a fazer tudo de novo", afirmou Cristina sobre o decreto -depois derrubado pelo Senado- que aumentou os impostos às exportações de grãos, desencadeando locautes dos produtores rurais e desabastecimento.
Mas a entrevista oferecida em um salão da Quinta de Olivos, a residência presidencial, já é um sinal de mudança. Seu marido e ex-presidente, Néstor Kirchner (2003-2007), nunca havia participado de uma, e o casal presidencial é conhecido por não ter boas relações com a imprensa. Em um clima descontraído, ministros de governo passeavam entre os jornalistas, assim como Catalina, a cadela de Néstor. Cristina, no entanto, não afirmou se as coletivas agora serão freqüentes.
Sobre a crise com o campo, disse que seu único erro foi "a ingenuidade" em relação à reação de setores econômicos poderosos e voltou a criticar as entidades agropecuárias que comandaram o locaute.
"Desde o retorno da democracia não se viu tal grau de violência, com um locaute patronal e bloqueios de estradas."
Divergências com Brasil
À véspera da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país, Cristina afirmou que discutirá com o brasileiro sobre as divergências que geraram um atrito entre os dois países na OMC (Organização Mundial do Comércio).
"Sem um desenvolvimento industrial como o do Brasil, a proposta apresentada não nos parecia um bom negócio. Nos anos 40 e 50, tínhamos nossa indústria aeronáutica muito mais desenvolvida que a do Brasil, mas, como produto de políticas de investimento constantes, hoje eles têm a Embraer e nós não temos nada."
Cristina afirmou, no entanto, que as diferenças podem ser resolvidas. "Há divergências, mas isso não significa que não se possa articular uma proposta comum."
Negando todos os conflitos internos, a presidente disse que não se impressiona com as críticas que dizem que haveria um "duplo comando" no governo argentino. "Em 2003, Kirchner era desconhecido em Buenos Aires e diziam que quem governaria seria eu. Agora quem é débil, pusilânime e manipulável sou eu."
Sobre as acusações de manipulação dos índices de inflação, a maior preocupação dos argentinos, segundo pesquisas, disse apenas que "acontece em todas as sociedades e todas as economias".
Se negou também a criticar o voto do vice-presidente Julio Cobos, responsável por derrubar o projeto dos impostos no Senado. "É preciso "desdramatizar". Cada um é responsável por suas ações políticas."
A coletiva de Cristina não foi marcada para o dia de ontem à toa. Poucas horas antes, era inaugurada a Exposição Rural, com a presença de todos os líderes agropecuários e políticos da oposição. No evento, o presidente da Sociedade Rural, Luciano Miguens, apresentou um discurso muito mais duro que o de Cristina.
"Quando se ofende o campo, se ofende o povo. E quando se ataca o campo, se ataca a Argentina", afirmou Miguens, que também reforçou a unidade das entidades agropecuárias e criticou a manipulação dos índices de inflação -que são oficialmente de 9% ao ano, mas chegariam a 25%, segundo analistas econômicos.

Catalina, a boxer de Néstor Kirchner, ganhou a atenção dos jornalistas roubando lanches, antes de a coletiva começar
Escrito por Adriana Küchler às 22h01

