Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias
 

Vacas por piquetes

      Raúl Castells, líder do Movimento Independente de Aposentados e Desocupados, já foi um dos principais líderes piqueteiros da Argentina. Apesar de ter perdido um pouco das atenções nos últimos anos, sempre dá um jeito de aparecer com suas causas.

     Durante o conflito do governo com o campo, ficou ao lado dos ruralistas e foi para a praça do Congresso com seu exército de piqueteiros levar o seu apoio à causa contra o aumento de impostos às exportações de grãos.

     Só que todo esse apoio não saiu de graça. Ontem, quando foi inaugurada a Exposição Rural, a maior feira agroindustrial do mundo, Castells apareceu por lá para cobrar dos líderes ruralistas o seu apoio... em vacas. E se deu bem. Ganhou (a promessa de) cem vacas, 50 da Sociedade Rural e outras 50 das Confederações Rurais, que serão doadas para os chamados "comedores populares" de Províncias pobres do Norte do país.

     Sem se dar por satisfeito, Castells ainda fez uma exigência: que representantes do governo não compareçam à feira. "Não podemos ser amigos da (Sociedade) Rural, se convidam funcionários do governo", disse o piqueteiro. Até agora, com a briga ainda no ar, ninguém do governo deu as caras. 

 

O presidente da Sociedade Rural, Luciano Miguens (de cabelo branco), passeia ao lado do piqueteiro Raúl Castells (barbudo) pela Exposição Rural.

Escrito por Adriana Küchler às 16h48

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Egos e crises

     A crise argentina tem inspirado colunistas da Folha a fazerem ótimas dissertações sobre o país. Depois do texto de Ferreira Gullar (aí abaixo), reproduzo aqui o de Nelson Motta, publicado hoje no jornal. Motta inicia o ótimo texto com uma piada sobre o ego e a loucura dos hermanos. Aproveito pra contar uma outra, que me foi contada por um psicólogo carioca: "O argentino queria se matar, então se jogou de cima do seu ego. Morreu com o impacto da queda? Não, de cansaço."

NELSON MOTTA

O tango do argentino doido

BUENOS AIRES - O que é ego? É um argentino pequenininho que vive dentro de cada um de nós. Até eles se divertem com a piada: a Argentina tem o maior numero de psicanalistas per capita do mundo, e não lhes faltam clientes: los hermanos siguen muy locos, assim como Buenos Aires continua linda, apesar da invasão turística brasileira. A elegância européia de sua arquitetura e a sua grandiosidade urbanística não têm paralelo na América Latina. Os portenhos são, sim, muito agradáveis, são mais cultos e educados do que nós, lêem mais, são mais politizados, pero...

A última loucura argentina foi a derrota do governo na crucial votação do imposto de exportações agrícolas, motor produtivo do país, que provocou bloqueios em estradas, desabastecimento nas cidades e panelaços durante três meses, e fez a popularidade da presidenta desabar. E quem derrotou o governo? O vice-presidente da Republica, Julio Cobos, que também é presidente do Senado, e deu o decisivo voto de minerva -contra o seu governo. Nem no Brasil ocorreria um desvario semelhante. É bem mais louco do que o José Alencar decidindo a votação contra a CPMF.

O casal Kirchner faz a linha Bush/Garotinho: quem não está conosco está contra nós. Devastaram a oposição e governam autoritariamente, acuando o Congresso e a imprensa, numa espécie de peronismo esquerdista sessentista, movido a piquetes e manifestações de rua. Para a derrota no Senado, a metáfora perfeita é o animal fetiche dos pampas: caíram do cavalo.
Tudo por causa de um aumento brutal do imposto sobre exportações agrícolas para bancar a gastança populista do governo. Um clássico latino-americano. Pior foi ouvir os líderes governistas defendendo o aumento como redistribuição de renda. Nem no Brasil.

Escrito por Adriana Küchler às 16h01

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Buenos Aires segura?

     Uma pesquisa sobre segurança em diferentes cidades do mundo tirou do sério o ministro da Justiça argentino, Aníbal Fernández. É que Buenos Aires ficou pra baixo da metade no ranking, em que Luxemburgo aparece em primeiro, como a cidade mais segura, e Bagdá, em 215º, em último.

     Buenos Aires ficou em 134º, segundo a pesquisa da consultoria Mercer, a frente de São Paulo, Rio e Caracas, mas atrás de cidades normalmente consideradas mais perigosas, como Assunção ou Lima.

     Essa pesquisa "de séria não tem nada", disse Aníbal Fernández. "A verdade é que é uma estupidez que beira a loucura."  Para o ministro, a Argentina deve ser um dos países mais seguros, "se não é o mais seguro da América". 

     Para ilustrar a sensação de insegurança que a cidade pode trazer aos estrangeiros, o jornal "Clarín" de hoje traz uma matéria sobre o levantamento em que relata que a página do Departamento de Estado dos EUA alerta para a presença de "mostaceros" por aqui. Esse tipo de bandido suja a vítima, para depois limpá-la tanto da sujeira quanto dos seus pertences.

     Já o escritório internacional do Reino Unido atenta para os seqüestros-relâmpago, e a chancelaria francesa recomenda não ir além do famoso Caminito, no bairro da Boca, e se cuidar no bairro de San Telmo ou na caótica rua Florida.  

Aníbal Fernández não gostou nada da pesquisa que mostra Buenos Aires como uma cidade pouco segura

Escrito por Adriana Küchler às 21h10

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A história me julgará

     O vídeo abaixo já foi assistido mais de 13 mil vezes e, como ele, há outros campeões de audiência no youtube que também reproduzem o não do vice-presidente, Julio Cobos, ao projeto de lei do governo que determinava o aumento de impostos às exportações de grãos.

     Difícil entender porque a simples e hesitante fala de um vice, sem palavrões, escorregões ou barraco, tenha virado tamanho sucesso? A história é que esse não, além de uma "traição" de um vice a sua presidente, determinou a primeira derrota do governo Kirchner em cinco anos.

     Daí surgiu a "cobosmania". Na internet, é possível comprar camisetas e canecas com as dramáticas, tangueras e já históricas frases de Cobos: "A história me julgará", "Meu voto não é positivo", "Não posso acompanhar e isso não significa que traí ninguém" e a minha favorita "[Há quem diga que tenho que acompanhar mas] meu coração diz outra coisa".

     Claro que nem tudo são flores para Cobos, chamado de traidor pelos que apóiam o governo. Grupos kirchneristas espalharam pela cidade cartazes para mostrar que a traição tem suas conseqüências. Aproveitando a data comemorativa de ontem, o principal deles diz "mais sozinho que Cobos no Dia do Amigo".

Escrito por Adriana Küchler às 20h42

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Néstor e Cristina x Perón e Evita

 Na Folha de ontem, Ferreira Gullar fez uma interessante reflexão sobre esse país inconfundível e uma comparação entre o atual casal presidencial e outro mais antigo e intocável (ao menos por aqui).

FERREIRA GULLAR

De vivos e de mortos


A Argentina é um país com caráter original, o que a faz inconfundível e até contraditória


EM MEIO à crise que a Argentina atravessa, alguém teria ouvido a presidente Cristina Kirchner gritar para o marido Néstor: "Aquí, quién es la presidenta soy yo, carajo!".

A Argentina é um país com características muito próprias, que a tornam inconfundível na comunidade sul-americana. Inconfundível e, sob certos aspectos, contraditória. Por exemplo, se o nível cultural de seu povo é bem mais alto que o de seus vizinhos, por outro lado, no plano político, paga o preço de um atraso -o populismo peronista- que já dura mais de meio século. Nós e os demais países latino-americanos (para ficarmos em família) temos também nossos atrasos mas, talvez, menos arraigados e mais disseminados.

Na Argentina, por certo devido a seu caráter marcadamente original, que não se limita à tradição peronista, há coisas que só acontecem lá, como é o caso do casal Kirchner, uma espécie de reedição da dupla Perón e Evita, ainda que em versão moderna. Mas que Néstor e Cristina formam um casal inusitado, não há dúvida. Se cabe, com referência a eles, a tese de que a história, quando se repete, é em tom de farsa, não sei, mas não me arriscaria a eliminar de todo essa hipótese. É impossível, quando penso neles mas, sobretudo, quando os vejo juntos, não lembrar de Perón e Evita, não como uma repetição da história argentina e, sim, como uma imitação suspeita, em que não confio inteiramente.

Veja bem, não é que Perón e Evita tenham sido exemplos louváveis de líderes políticos. Muito pelo contrário, eles foram a expressão de um populismo sindicalista que pretendia eternizar-se no poder. A morte precoce de Evita -que se havia tornado a mãe dos descamisados- retirou do general-presidente seu principal instrumento de mistificação do poder. De pouco lhe valeu embalsamar o corpo dela e deixá-lo exposto à visitação pública na sede da CGT. Talvez até tenha sido esse um dos motivos do golpe que o derrubou.

Mas isso não foi suficiente, pois o cadáver continuava ali, como uma ameaça, uma espécie de réplica do de Lenine, também líder dos trabalhadores (é que certos líderes não devem morrer e, quando morrem, não podendo ressuscitar como os santos, são embalsamados). Temerosos, os militares argentinos roubaram o cadáver de Evita e o sepultaram num distante cemitério de Milão, na Itália, dando início a uma espécie de vaudeville macabro.

Não se tem notícia de nada parecido na história política nem se imagina que Néstor e Cristina venham a passar por lances semelhantes. No entanto, foi Perón mesmo que tentou copiar sua própria história, casando-se, após ter sido deposto, com Isabelita, dançarina, mulher da noite como Evita, que era cantora. E, assim que pôde, eleito de novo presidente da Argentina, trouxe a tiracolo, como vice, a nova esposa.
Mas, bem antes disso, exilado em Madri, recebeu de volta o cadáver de Evita, que havia sido exumado do túmulo em Milão. Pateticamente, manteve-o em sua casa, sob os cuidados de Isabelita, que, regularmente, a penteava e maquiava, com espantosa dedicação.

Eu estava em Buenos Aires, a caminho de Santiago do Chile, em 1973, quando Perón disputava a presidência. Ouvi um de seus discursos no rádio do hotel. Um ano depois, morto Allende, ao descer no aeroporto de Ezeiza, o carregador de bagagem, comovido, me comunicou:
-Estamos de luto, morreu Perón.

Se o velório de Evita durara 15 dias, o de Perón durou quatro, e Isabelita assumiu o governo para ser deposta, dois anos depois, pelos milicos de sempre. A iminência parda de seu governo chamava-se Lopez Rega e tinha fama de bruxo. Um de seus primeiros atos foi trazer de volta o corpo de Eva Perón para a exibição pública em Buenos Aires, certamente visando manter vivo o culto à mãe dos pobres. Os milicos rosnaram e ela mandou finalmente sepultá-la ao lado do marido (das duas). Uma história que seria inconcebível no Brasil, em que pese a nossa fama de país surrealista, talvez porque sejamos mais chegados a um samba que a um tango.

E tanto assim é que, ao ler aquela frase de Cristina Kirchner, o que me veio à mente nada tinha de macabro: lembrei-me de um fato, que embora ocorrido na época de Perón e Evita, me fez rir de novo. O embaixador brasileiro, em Buenos Aires, foi visitar o ministro argentino das Relações Exteriores, acompanhado de sua esposa, quando a senhora do ministro, para mostrar-se familiarizada com o Brasil, falou:
-Son muy semejantes nuestros idiomas, verdad? Nosotros decimos carajo y ustedes dicen "caralho", no?
Sim, digo eu agora, mas não na presença de senhoras.

 

Néstor e Cristina Kirchner, em clima de festa peronista

Escrito por Adriana Küchler às 20h27

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Dia do Amigo e o rei Roberto

     Roberto Carlos volta a esse blog por um bom motivo. Hoje é Dia do Amigo, data que, aqui em Buenos Aires, é tão celebrada quanto o Dia das Mães ou o dos Pais. Grupos de amigos se reúnem em restaurantes e bares para comemorar, trocam presentes, fazem churrascos... Lojas e restaurantes aproveitam para ganhar um extra e fazem promoções para atrair os amigos.

     Robertão é sempre usado como referência quando se fala em amigos por aqui. Uma das canções favoritas do rei entre os argentinos é aquela do "Eu quero ter um milhão de amigos..."

     Hoje, o canal de notícias TN voltou a unir o rei aos amigos argentinos. Pediu a seus telespectadores que enviassem fotos do Dia do Amigo e, enquanto transmitiam as imagens enviadas, tocavam a música "Amigo", do rei Roberto. O que surpreendeu é que a versão era um tanto inusitada. "Amigo" aparecia com uma pegada punk e cantada em espanhol pela banda Attaque 77, que fez um disco só de covers e não podia deixar a canção do rei de fora.

 

Escrito por Adriana Küchler às 23h44

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A primeira derrota dos Kirchner

Na Folha de ontem:

Fiz questão de registrar aqui as duas matérias abaixo, publicadas no jornal, porque o fato é realmente histórico, como dizem os argentinos. Segundo meu amigo correspondente da revista "The Economist", o não de Julio Cobos no Senado, na última quinta-feira, é o fato político mais importante acontecido na Argentina desde que ele chegou por aqui, há uns quatro anos.

Cristina revoga aumento de imposto que detonou crise

Decisão acontece após Senado rejeitar proposta em disputa desempatada por vice

Alta da alíquota sobre a exportação de grãos levou a quatro meses de protestos de ruralistas e queda da popularidade da presidente


Natacha Pisarenko/Associated Press

Cristina recebe presidente lituano;
recuo do governo é inédito


ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Depois de 129 dias de conflito com o setor agropecuário, a presidente argentina, Cristina Kirchner, assinou ontem um decreto anulando o aumento de impostos sobre as exportações de grãos instituído em março, que gerou uma crise que ainda se arrasta com o campo.
O anúncio, que, na teoria, acaba com a guerra, foi feito um dia depois de o Senado, com o voto de Minerva do vice-presidente Julio Cobos, ter derrubado o projeto de lei que tratava do tema -no que foi considerada a maior derrota política de Cristina e de seu marido e antecessor Néstor Kirchner.
A criação em 11 de março dos chamados impostos móveis, que variam conforme o preço dos produtos no mercado internacional, gerou quatro locautes ruralistas, bloqueios de estradas, desabastecimento e aumento da inflação.
Diante da posição intransigente do governo, a classe média, a oposição e parte da base governista se uniram ao campo. Com a anulação, os impostos voltam a ser os de 10 de março.
Ao anunciar a decisão em nome da presidente, o chefe-de-gabinete, Alberto Fernández, mostrou a insatisfação do governo. "A resolução foi pretexto para um violento locaute que iniciou uma escalada de bloqueios de estradas, desabastecimento, ações verbais e físicas", disse Fernández. "Ficará sem efeito para que seja tratada em outro âmbito, sem pressões nem agressões."
A anulação da chamada "resolução 125", a principal exigência dos ruralistas, foi comemorada com moderação por líderes agropecuários e pela oposição, que buscam discutir outras questões com o governo.
Sem comentar diretamente a derrota no Senado, a presidente recebeu ontem na residência oficial os parlamentares que votaram com o governo para parabenizá-los.

Efeitos
A conseqüência imediata do fim dos impostos móveis, do ponto de vista econômico, deve ser um forte aumento das exportações de soja do país, que estariam estocadas à espera de uma decisão sobre a manutenção do aumento de impostos.
Sob a perspectiva política, a anulação da medida é apenas o ápice de uma longa crise. "O resultado no Senado e o fim da resolução não aconteceram de um dia para o outro", diz o analista político Ricardo Rouvier. "Foi como culminou um processo contraditório em que o governo foi perdendo consensos, a opinião pública e suas vantagens no Congresso."
Durante os quatro meses de crise, Cristina fez várias alterações no projeto para tentar acalmar os ânimos dos produtores rurais e da oposição.
Ainda em março, anunciou medidas que beneficiariam os pequenos produtores. Em abril, decidiu-se que esses receberiam a restituição do aumento. Em maio, anunciou tetos mais baixos para as alíquotas.
Mas, desde o início, ninguém entendia para que serviam os impostos. Então Cristina anunciou, em junho, que seriam aplicados na construção de hospitais e casas populares. Nenhuma das técnicas funcionou e, há um mês, a presidente enviou o projeto ao Congresso, com a esperança de vê-lo aprovado e se livrar do problema, já que o governo tinha maioria nas duas Casas antes da crise.
A lei passou com uma vitória apertada na Câmara de Deputados e acabou derrubada pelo Senado e pelo próprio vice-presidente, Julio Cobos. Era a primeira derrota dos Kirchner.

E mais: Campo pressionará por mais concessões 
          Foco: Tratado como herói após voto histórico, Cobos recebe parabéns até de Maradona

Escrito por Adriana Küchler às 23h25

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PERFIL

Adriana Küchler Adriana Küchler, 27, é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e repórter da Folha há três anos. Morou no Rio, em Florianópolis e em São Paulo, antes de aterrissar em Buenos Aires..

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