Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias
 

O começo do fim

     Na Folha de hoje:

Vice de Cristina barra no Senado alta de imposto polêmico

Na primeira grande derrota da presidente argentina, Julio Cobos desempata no Senado contra aumento que causou crise com campo

Em discurso após episódio, mandatária afirma que "nunca traiu o povo"; apesar de decisão, medida só sai de vigor se ela ordenar


Juan Mabromata/France Presse
Partidários do setor agropecuário celebram votação em Buenos Aires com imagem de Cobos

ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Com um surpreendente voto de Minerva opositor, o vice-presidente argentino, Julio Cobos, impôs ontem a primeira grande derrota aos Kirchner: a presidente Cristina e seu marido e antecessor, Néstor, viram cair no Senado o projeto de lei que aumentou os impostos sobre as exportações de grãos. "A história me julgará", disse Cobos ao desempatar a votação contra o governo.
A alta das alíquotas detonou uma crise com o setor rural que se arrasta há quatro meses, abalou a popularidade de Cristina e erodiu sua base de apoio.
Diante do empate na votação do projeto entre os senadores, com 36 votos a favor e 36 contra, a decisão final coube ao vice, que, na Argentina, também preside o Senado. Cobos resistiu até o último momento a dar sua posição. Após o resultado, pediu um intervalo no debate, que foi negado. Convocou então outra votação em que o empate se repetiu. E, depois de 18 horas de sessão, às 4h25, ante uma "responsabilidade histórica", votou contra o governo.
"Há quem diga que tenho que acompanhar [Cristina] pela institucionalidade, pelo risco que implica, mas meu coração diz outra coisa. E não acredito que isso seja motivo para pôr em risco a governabilidade e a paz social", declarou Cobos.
Em um evento, à noite, a presidente faria referências indiretas ao vice. "Alguns não entenderam o que prometemos em outubro [quando foi eleita]. Os pobres não são apenas discurso eleitoral." Disse ainda que ela e o povo podiam "nos olhar nos olhos e saber que nunca nos traímos".
Foi a terceira vez que um presidente do Senado desempatou a votação de um projeto. Mas foi a primeira que a decisão foi contra o governo.
A resolução derrubada foi anunciada pelo governo em março e provocou quatro locautes agropecuários, com bloqueios de estradas e desabastecimento. O governo, que antes da crise tinha uma maioria segura nas duas Casas do Congresso, conseguiu a aprovação na Câmara por apenas sete votos. No Senado, a maioria derreteu. Legisladores, prefeitos e governadores que antes apoiavam o governo, preferiram se manter ao lado dos eleitores.

Herói ou traidor?
Enquanto oposição e ruralistas tratavam o vice-presidente como um herói, movimentos kirchneristas como o La Cámpora, em que milita o filho do casal presidencial, pediam a renúncia de Cobos.
O vice, no entanto, afirmou que não pensa em deixar o cargo. "Nem me passou pela cabeça renunciar, pois isso seria trair a vontade popular", disse Cobos, que costuma afirmar que foi eleito como Cristina.
Antes um vice-presidente sem expressão, em meio à crise ele assumiu uma posição "independente" ao convocar prefeitos e governadores para discutir o aumento de impostos e propor que o projeto fosse discutido no Congresso.
A decisão do Senado não acaba com o imposto nem com a crise, já que a resolução só pode ser derrubada pela presidente. Pela Constituição, o projeto também não pode voltar ao Congresso neste ano. Líderes agropecuários e da oposição esperavam ontem que o governo respeitasse a votação, como sugerira antes Néstor Kirchner.

 E mais: Para analistas, casal Kirchner buscou derrota 
           Após decisão, festas e ataques ao Congresso 
           Voto contra alça Cobos de coadjuvante a herói da oposição

Escrito por Adriana Küchler às 20h36

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O sumiço dos jornais

     Diante do megaconfronto entre campo e governo que se espalhou pelas ruas de Buenos Aires ontem, reunindo mais de 300 mil pessoas em dois atos "inimigos", e se fechou no Senado hoje, os jornais de hoje desapareceram das bancas.

     No bairro "cheto" (metido) da Recoleta, um dos poucos onde o conservador "La Nación" supera as vendas do "Clarín", mais liberal, a pilha do "Clarín" estava vazia em várias bancas. "Muitas pessoas que só compram o "La Nación", levaram dois ou três jornais para saber mais sobre os acontecimentos de ontem e de hoje", contou meu 'quiosqueiro' Gabriel (que trabalha, no quiosco, a banca).

     Depois de rodar por três ou quatro bancas, não consegui comprar o jornal "Crítica", atualmente o mais divertido e polêmico. Estava esgotado em todas.

     Mas, se os atos e discursos fizeram sucesso com o público que compareceu aos eventos e com o que comprou os jornais no dia seguinte, na TV parece que a briga não foi campeã de audiência. Enquanto os discursos de representantes do campo e do governo eram reproduzidos por vários canais, quem liderava o ibope era mais um episódio dos Simpsons, paixão nacional argentina.

Ato do campo contra o projeto de aumento de impostos do governo reuniu cerca de 200 mil pessoas ontem no bairro de Palermo

Escrito por Adriana Küchler às 13h38

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Flores ou ossos?

     Turistas que têm o Jardim Botânico de Buenos Aires como um dos pontos turísticos a ticar na sua lista devem estar frustrados. Há duas semanas, o Botânico, uma das áreas verdes mais agradáveis e cheias de gatos (o bicho) da cidade, foi fechado e seu diretor afastado diante da acusação de que empregados estavam cobrando dinheiro para realizar o enterro de restos humanos no local.

     Hoje, chegou a notícia: a Comissão de Direitos Humanos do Congresso afirmou que um grupo de antropólogos forenses encontrou por ali "restos ósseos e dentaduras e duas urnas com restos humanos, com nomes e datas de morte", informou o jornal "Clarín".

     O enterro ecológico parece não ser uma novidade: dois ex-jardineiros já haviam denunciado a prática.

     Outras irregularidades tomam conta do até então reduto de paz. Uma reportagem do canal de TV América mostrou que dois funcionários cobravam dinheiro para permitir gravações e sessões de fotos no parque. Os dois foram presos, mas o Botânico continua fechado.

Entre as plantas e estátuas do Jardim Botânico, investigadores buscam restos de corpos

Escrito por Adriana Küchler às 20h55

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Piquete gastronômico

     A nova modalidade de piquete dos argentinos é fazer protesto contra funcionários do governo em restaurantes. O último atingido pela moda foi o polêmico secretário de Comércio, Guillermo Moreno.

     Em meio ao conflito do governo argentino com o campo, uma senhora dona-de-casa de família ruralista teria abordado o casal Moreno durante um jantar com críticas à atuação do governo no conflito. Acabou levando um "cachetazo" (bofetada) da mulher do secretário na saída do restaurante. Ou seja, na verdade, a atingida foi ela, que apresentou queixa à polícia.

     O primeiro a sofrer com o piquete gastronômico foi o ex-ministro da Economia Martín Lousteau, o responsável pelo polêmico aumento de impostos às exportações de grãos, que provocou a atual crise e a sua demissão.

     Relaxando em um restaurante de Paris, já de folga, depois de deixar o cargo, Lousteau enfrentou a ira de uma mesa de argentinos que o xingavam de "ladrão" a "sem-vergonha". Sem poder controlar o piquete, os funcionários do restô pediram que Lousteau deixasse o local.

     Em tempo, o secretário Moreno é conhecido por suas posições radicais e duros métodos de negociação. No mês passado, apareceu em um ato do governo na praça de Maio escoltado por Jorge Cali, um campeão de kickboxing.

    

     O secretário Moreno protegido pelo kickboxer Cali

Escrito por Adriana Küchler às 20h08

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Muito além do tango

     Uma dica musical para mostrar que nem só de tango vive o argentino. O Los Alamos é um grupo de folk rock, já classificado como "rock desértico" e chamado por eles mesmos de "narco country". Na prática, a mistura de influências de Bob Dylan, Neil Young e afins faz com que seus shows performáticos estejam sempre lotados.

     No ano passado, passaram pelo Brasil acompanhando a lenda do dub Lee Scratch Perry. Em entrevista à Folha, o vocalista Peter afirmou que "para quem conhece rock, não soamos como nada de novo, mas para a Argentina somos como extraterrestres. Não falamos de nacionalismo, nem de futebol, nem do Maradona".

Escrito por Adriana Küchler às 23h27

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Adriana Küchler Adriana Küchler, 27, é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e repórter da Folha há três anos. Morou no Rio, em Florianópolis e em São Paulo, antes de aterrissar em Buenos Aires..

SITES RELACIONADOS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.