Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias
 

Por um inverno sem peles

     Com a chegada do frio, chegaram também às ruas de Buenos Aires as finas senhoras com seus casacos de pele. Para disputar espaço com elas, a ONG AnimaNaturalis lançou uma campanha na cidade contra o uso dessas peças.

     A imagem é forte -a atriz vegetariana Marcela Kloosterboer, uma ex-Chiquitita, carrega uma raposa sem pele- e vem gerando reclamações dos defensores das peles, além de algumas caras de nojo.

     Nesta quarta, dia 25, a ONG convida aqueles que se identificaram com a campanha a se engajar. Para chamar atenção para a causa contra as peles quentinhas, os ativistas vão passar frio e ficar semi-nus, imitando os corpos de animais mortos, em uma performance no Obelisco, um dos principais pontos da cidade.

     Quem se interessou pode se inscrever no site da campanha www.sinpielargentina.org. Lembrando que, mesmo que o dia esteja muito frio, só vale usar pele sintética.

Escrito por Adriana Küchler às 03h22

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Alô, Cristina!

     A TV argentina é um tanto diferente da brasileira. Os canais de notícias ficam tantas horas ao vivo cobrindo o mesmo tema que é possível pensar que não têm publicidade, que o minuto de TV deve sair bem barato.

     Nada disso. Segundo o site Television, os canais de TV perderam uma bolada com a obrigação de transmitir os recentes discursos da presidente Cristina Kirchner em cadeia nacional. Foram cinco durante a crise com o campo; três só nesta semana.

     A vontade de Cristina de falar com o seu pueblo custou 3.668.000 pesos (R$ 1.950.000) em publicidade não-emitida a quatro canais de televisão nacionais, conta o site.   

     Além dos custos em publicidade, os dias com discursos de Cristina trazem outros prejuízos para a TV, de imagem principalmente. Na última terça, quando a presidente e seu ex-marido comandaram atos na mesma tarde, fazendo com que as TVs passassem horas "non-stop" em função dessa cobertura (aí por vontade e não mais por obrigação), os telespectadores puderam presenciar o apresentador Eduardo Feinmann, do canal de notícias C5N, declarando que tinha comandado o programa ao vivo durante tantas horas seguidas que não teve tempo nem de ir ao banheiro. 

A presidente Cristina Kirchner, no discurso de quarta, na praça de Maio

Escrito por Adriana Küchler às 01h21

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Duas praças de Maio

 

            Nos últimos meses, conheci duas praças de Maio, esse local histórico onde ficam a Casa Rosada, o Cabildo e a catedral, mas que também concentra os piquetes “a favor de todas as lutas”, como vi uma vez um cartaz aí.

            O primeiro ato pró-governo que acompanhei aí, no dia 1º de abril, ainda no começo da crise com o campo, me impressionou. Não pelo discurso da presidente Cristina, mas porque uma grande parte dos presentes carregava não bandeiras, mas pedaços de pau na mão, nenhum deles com cara de que um dia carregou uma bandeira.

Tive a pachorra de perguntar pra um por que levava aquele pau e ele, com pachorra ainda maior, respondeu que a bandeira se perdeu.

Ao ver que o número de paus e moleques que nem sabiam o que se passava ali* só aumentava, decidi ir embora. Na saída, mais um ataque de inocência: perguntei a um policial por que as pessoas entravam com paus.

E a cara-de-pau nunca foi tão grande: “eram bandeiras”, reproduziu o oficial. Diante da minha cara de “qual é?”, o policial teve que ser sincero e confessou: “ninguém mandou que a gente controlasse isso, e nós só seguimos ordens”.

Ontem, tomei coragem e fui de novo à praça para mais um ato que reuniu partidos, sindicatos e piqueteiros afins em apoio à Cristina. Dessa vez, o clima era um pouco mais amigável. Vi muitos pedaços de paus que carregavam bandeiras e não tive que recorrer a nenhum policial para apaziguar minha angústia.

Oitenta dias se passaram entre um evento e outro, e o discurso de Cristina foi praticamente o mesmo: atacou o campo e se defendeu sob os aplausos dos seus.

No fim, falou de amor e recebeu um abraço do marido e ex-presidente Néstor que rendeu a divertida capa abaixo do criativo jornal “Crítica”. Pra quem não sabe da missa a metade, parece até um final feliz.

*Dizem que grande parte dos que vêm de outras cidades para os atos do governo na capital, recebem uma pequena quantia em dinheiro ou um lanche em troca da sua presença.

Cena do 1º de abril na praça de Maio

Cena do 18 de junho na praça de Maio

Escrito por Adriana Küchler às 11h16

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Cem dias de loucura

     O programa "Palavras Mais Palavras Menos", do canal de notícias TN, atualizou na edição de ontem o ótimo vídeo "Dois Meses de Loucura", já publicado aqui. Amanhã, a crise entre o campo e o governo argentino completa cem dias.

     As coisas se acalmaram um pouco ontem, quando a presidente Cristina Kirchner cedeu e decidiu mandar o projeto que aumenta os impostos sobre as exportações de grãos ao Congresso, mas o conflito não acabou.

     Talvez, para quem não esteja por aqui, o vídeo seja difícil de entender. Explico: a situação é difícil de entender até para quem está aqui. Um quilombo, como dizem os argentinos. Nesses cem dias, o país se dividiu em dois. Houve ataques entre o campo e o governo, estradas de todo o país foram bloqueadas, voltaram os panelaços e o fantasma do desabastecimento, os preços não pararam de subir. Como diz o vídeo, todos pediram um gesto de grandeza, mas a grandeza não quis fazer nenhum gesto. Todos chamaram o diálogo, mas o diálogo não atende.

Escrito por Adriana Küchler às 11h20

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Pizza portenha

     Quando comecei a indicar restaurantes aqui, logo me perguntaram pelas pizzas de Buenos Aires. Com uma forte colonização italiana, assim como São Paulo, a cidade obrigatoriamente deveria ter sua cultura pizzeira.

     Pois, nos últimos dias, descobri duas ótimas pizzarias clássicas, nada turísticas e muito baratas. Nas duas, o hit é comer "al paso", no balcão mesmo, sem o ritual da comilança, mas também vale sentar à mesa.

     Na Guerrín (av. Corrientes, 1.368), aprendi o que é faina (uma massa de farinha de grão-de-bico que se come como se fosse uma cobertura da pizza) e o que é Moscato (um vinho barato que se bebe com soda e que embebeda sem que você perceba). Pelo que vi nas mesas ao lado, os dois são um sucesso por aqui. A "Pizza con faina" é, além de tudo, uma música da divertida banda Los Autenticos Decadentes.

     A Kentucky (Santa Fé, 4.602) funciona desde 1942 em Palermo e é, como diz um comentário que li num site, "onde se respira o ar 'bodegón' de Buenos Aires". O lugar é barulhento e meio caótico, mas é obrigatório conhecer. Outra referência musical: é a segunda casa da ótima banda de folk rock local Los Álamos.

     *PS: Há que deixar de lado aqui os padrões brasileiros (ou paulistanos) de pizza. Nada de frango com catupiry ou tomate seco com rúcula, mas se você gosta dos sabores mais "básicos", vai aproveitar.

    

    Balcão da pizzaria Kentucky, em Palermo

 

Escrito por Adriana Küchler às 22h15

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Os direitos humanos viraram um negócio

Filha de desaparecida na Argentina cria próprio grupo

Bárbara García ataca militantes da esquerda, cobra abertura dos arquivos e diz que política para direitos humanos é de fachada

ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Magra, loira, de cabelos longos, calça jeans justa e branca sob a bota de cano alto e casaco com brilhos. Bárbara García não lembra em nada o protótipo do militante dos direitos humanos argentino -senhoras de xale e lenço na cabeça ou jovens e adultos que se vestem como os hippies dos anos 70.


Mas Bárbara, 41, perdeu um parente na última ditadura militar argentina (1976-1983). Sua mãe, a espanhola Rocío, foi uma das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas.

Professora e militante do Exército Revolucionário do Povo (ERP, grupo trotskista), Rocío foi levada na noite de 13 de junho de 1976, sob os olhos de Bárbara, então com oito anos, e do irmão, Camilo, com três.

Aos 17 anos, Bárbara começou a buscar informações sobre a mãe, mas foi só há cerca de dez, já produtora de rádio e televisão, que resolveu se unir a uma das entidades que reúnem parentes de desaparecidos.

Escolheu o Hijos (um dos grupos mais tradicionais, formado por filhos de seqüestrados pelos militares) e logo foi a uma marcha de 24 de Março, dia em que se lembram os mortos sob a ditadura.

Acabou se metendo em um grupo e marchou até encontrar o seu, caminhando em sentido oposto. "Eles começaram a gritar para eu sair dali, que estava marchando no sentido errado. Junto, havia membros de torcidas organizadas, chamados para fazer número, que começaram a me xingar."

Foi entender depois que o grupo a que pertencia era o Hijos da linha revolucionária, e aquele a que se juntou sem querer era de outra linha, a fundadora. "Aí comecei a me questionar por que havia várias linhas, uma brigada com a outra. Por que estavam separados se a causa era uma só?"

A questão a incomoda até hoje, quando virou bandeira dos governos do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) e da atual mandatária, Cristina Kirchner. "Os direitos humanos viraram um negócio. Me incomoda ver algumas mães e avós [de desaparecidos] humanizando a figura de Cristina Kirchner em eventos e questões que não têm nada a ver com os que desapareceram e com os direitos humanos", diz ela. "Os Kirchner conseguiram acomodar todos os grupos."

Para Bárbara, a política oficial de direitos humanos é de fachada. "Eles fizeram o que convinha para a imagem, mas não o fundamental, que é reabrir os arquivos militares da ditadura. Talvez porque envolvam pessoas que estão andando livres por aí."

Grupo espanhol
Sem querer se apegar a uma linha ou a um político, há dois anos Bárbara formou com um grupo de descendentes de espanhóis seqüestrados pelo regime militar, a Associação Asturiana de Familiares de Desaparecidos, que alega que os espanhóis são duplamente vítimas: do Estado argentino e do espanhol, por não ter amparado seus cidadãos que viviam na Argentina durante a ditadura.

"Queremos uma reparação moral e econômica. Que se reconheçam os mais de 620 espanhóis desaparecidos e que intimem o governo argentino a abrir os arquivos militares", afirma Bárbara.

No ano passado, Bárbara foi chamada para participar do ato de inauguração do chamado Muro da Memória, em Buenos Aires, com a presença do chefe de governo espanhol, José Luis Zapatero. Recusou o convite. "Quero um diálogo com ele, não me interessava fazer parte de um ato de um candidato em plena campanha eleitoral."

Bárbara chegou a fazer um filme, com financiamento do governo de Astúrias, contando sua própria história. Seu irmão, no entanto, parecia avesso a buscar o que havia passado com a mãe. Durante anos, foi um repórter famoso de um programa de TV. Do nada, largou tudo.

"Ninguém entendia por quê. Um dia li uma confissão no fotolog dele", conta Bárbara. "Dizia que queria ser famoso para ver se, de algum lugar, nossa mãe podia vê-lo, reconhecê-lo e vir em sua busca. Quando viu que passavam os anos e ela não vinha, decidiu abandonar a TV para nunca mais."


Escrito por Adriana Küchler às 21h19

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PERFIL

Adriana Küchler Adriana Küchler, 27, é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e repórter da Folha há três anos. Morou no Rio, em Florianópolis e em São Paulo, antes de aterrissar em Buenos Aires..

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