Uma forcinha pro Boca
Na quarta-feira, fui cobrir meu segundo jogo do Boca, desta vez contra o Fluminense pela semi-final da Libertadores. Apesar de torcer para um rival, apoiei o Flu a pedido de tantos amigos (e de um irmão) tricolores e talvez com alguma inspiração patriótica de torcer para um time do Brasil.
Mas, pela segunda vez, foi impossível ficar com a perna parada quando a torcida do Boca começava a cantar. Goste ou não do time, a torcida “xeneize” (que vem da palavra genovês) é impressionante. Quando a 12 (a torcida organizada do time) puxa, o estádio todo canta alto, e não só gritos de guerra, mas canções. Difícil não se contagiar.
No meu primeiro jogo do Boca, o clássico argentino contra o River Plate, não entendia uma palavra do que os “bosteros”* cantavam. Mas tive a sorte de contar com o amigo de estádio Patrício Orellana, torcedor do Boca, que, em troca de me fazer agüentar os seus “ataques de emoção", gentilmente me enviou as letras de algumas músicas.
Seguem algumas abaixo para curiosos ou para flamenguistas que estão se preparando para torcer pelo Boca, na partida de volta no Maracanã, na próxima quarta-feira. O Fluminense empatou em 2 a 2 fora de casa e saiu na frente na disputa pela vaga na final do campeonato.
“Bostero soy, y Boca es la alegría de mi corazón.
Sos mi vida vos sos mi pasión mas allá de toda explicación,
A mí no me interesa en que cancha juegues;
local o visitante yo te vengo a ver.
Ni la muerte nos va a separar
desde el cielo te voy a alentar”
“Señores hoy dejo todo
me voy a ver a Boca
porque los jugadores
me van a demostrar
que salen a ganar
quieren salir campeón
que lo llevan adentro
como lo llevo yo”
“Quiero ver a La 12 con todas sus banderas,
las sombrillas, los bombos, aunque
Yo soy hincha de Boca, yo no soy delincuente
Quiero ver a la 12, como toda la gente”

Torcedores carregam bandeira com imagem de Riquelme, craque do time
*bostero: a palavra usada para designar o torcedor do Boca vem de bosta mesmo. No começo, era usada como insulto por torcedores de outros times, mas hoje a própria torcida assumiu o termo
Escrito por Adriana Küchler às 16h25
Chega!
O jornal La Nación tem ótimas tirinhas diárias. O Nik não é dos meus preferidos, mas hoje trouxe uma mensagem que deve estar entalada na garganta de muito argentino, depois de 80 dias de conflito (e bloqueios nas estradas e discursos inflamados e falta de alimentos e ameaça de crise geral) e nenhum consenso entre o governo e o setor agropecuário.

*Em um comunicado...as pessoas querem dar a conhecer seu parecer. Entrem em acordo já. Não agüentamos mais.
Escrito por Adriana Küchler às 00h18
Leve guarda-chuva
O canal de notícias argentino TN (aquele chamado de Todo Negativo pelos críticos da imprensa) lançou uma série de comerciais um tanto positivos em comemoração aos seus 15 anos.
Neste, explica porque levar um guarda-chuva, quando a previsão do tempo é de toró, pode fazer todo mundo feliz.
Tem um quê daquele depoimento “filtro solar”, gravado pelo Pedro Bial, que rodou os e-mails de todo mundo, mas é mais bem sacado. Além de tudo, brinca com uma paranóia divertida dos argentinos, a de acompanhar o tempo todo a previsão do tempo.
*em espanhol
Escrito por Adriana Küchler às 19h59
'Che Boludo'*
Como saído de um conto de realismo mágico, Che Guevara desfilou ontem pelas ruas de Buenos Aires. De boina, roupa de combatente e com o olhar no horizonte, foi seguido por uma numerosa carreata e aplaudido pelas pessoas na calçada durante quatro horas.
Parou no Obelisco e posou para fotos com a bandeira argentina pendurada no pescoço.
Mas o tal Che é mais real do que mágico: tem quatro metros de altura, pesa três toneladas e foi feito com 75 mil chaves e objetos de bronze doados por pessoas de todo o mundo para confeccionar a estátua que celebra o 80º aniversário de nascimento do líder revolucionário argentino, morto na Bolívia em 1967.
A escultura, feita pelo artista plástico Andrés Zerneri, será levada hoje, de barco, até Rosário, cidade natal de Che. Lá, será instalada em uma praça, no dia 14 de junho, como parte de intensa programação de eventos que lembrarão o aniversário.

O Che em frente ao Obelisco
Escrito por Adriana Küchler às 15h47
Na terra de Che e Fito Páez
Em tempo, completo o post anterior com uma dica. Rosário, terra de Che Guevara e Fito Paez, me pareceu uma linda cidade de frente para o rio Paraná. Durante a meia hora em que corri pelas ruas de pedra da cidade em busca de um local com wifi para enviar minha matéria à Folha, vi o ostentoso monumento à Bandeira e a simpática e movimentada “peatonal” (calçadão) Córdoba, cheia de bares com mesas na rua, mas não deu tempo de localizar o colorido museu de Arte Contemporânea.
Fuçando mais, descobri que a cidade tem lindos teatros e parques. A 300km da capital, Buenos Aires, pode valer uma visita para o viajante que quiser explorar mais da Argentina. Até porque a estrada até lá é impressionante: bem-cuidada, larga e iluminada.
O monumento à bandeira e o rio Paraná. Os milhares de manifestantes não costumam fazer parte da paisagem
Escrito por Adriana Küchler às 23h00
Quem não pula é um pingüim
Um dos gritos mais criativos da oposição argentina é o “Quem não pula é um pingüim!”. Pingüim é como o casal Kirchner, ela presidente e ele ex-presidente, é chamado porque começaram suas carreiras políticas na região da Patagônia.
Estive ontem na cidade de Rosário, no Dia da Pátria argentino, para acompanhar o ato de oposição do setor agropecuário e, para além dos discursos antigoverno, que se repetem dia-a-dia, o mais interessante foi observar a animação dos ruralistas.
Os líderes dos agricultores estão em confronto com o governo há mais de dois meses pelo aumento de impostos às exportações. Mas, mesmo com posições duras e o corpo também, pulavam que nem adolescentes num show de rock quando o público entoava o grito do pingüim.
O público, estimado em 300 mil pessoas, também estava inspirado. “Kristina, o que eu faço com as vacas?”, dizia um dos cartazes em referência à proibição às exportações de carne. “Eu não vou pagar pelo trem-bala”, anunciava outro, citando um polêmico projeto do governo. No palco, um cantor vestido de “gaucho” entoava um chamamé: “Hoje, o céu não é azul. E meu campo eu tenho que alugar a um pool”.
Mas o momento mais inusitado da tarde foi quando o dirigente das Confederações Rurais Argentinas tentou avisar que precisavam de um médico no público. “Ali”, avisou, “Onde tem uma bandeira argentina.” Patrióticos como são os argentinos, quase todos os presentes carregavam a sua bandeira.
Escrito por Adriana Küchler às 22h24
Argentina polaca
No meio do agito e da modernidade de Palermo, um porão esconde uma surpreendente mistura de tradição e simpatia. Na rua Jorge Luis Borges, 2.076, o restaurante
Entre os pratos mais populares, estão diferentes versões do pierogi (massa recheada com carne ou queijo), o goulash (guisado de carne temperada com páprica) e o ser smazony (um queijo leve e frito que rende uma boa entrada para até quatro pessoas).
Não se importe se não conhece nada da cozinha polonesa. Os atendentes farão o seu melhor para esclarecer as owkas e owys. Para quem gosta de se arriscar no ambiente, mas não no cardápio, há também crepes e massas mais “comuns”.
O atendimento é dos mais simpáticos e eficientes da cidade, mas chegue com fome. Apesar de preconizar o conceito da “slow food” (leve o seu tempo para comer, beber, conversar...), a tradicional família polonesa não gosta de ver ninguém deixar comida no prato. É recomendável fazer reserva porque a mistura agradável garante filas na escada desse porão.

Escrito por Adriana Küchler às 00h58

