Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias
 

Religião e Estado

Nessa semana, Buenos Aires recebeu o guru indiano Sri Sri Ravi Shankar (não confundir com o músico indiano, amigo dos Beatles e pai da cantora Norah Jones). A cidade se encheu de cartazes dizendo que vinha por aí “o homem que vai mudar o mundo”.

 

O líder espiritual, fundador da ONG Arte de Viver e que participa de reuniões do Fórum Econômico Mundial, não reuniu apenas os seguidores de sua misteriosa técnica de respiração, como o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo. Aqui, como no Brasil, suas técnicas são aplicadas a presos e funcionários de presídios. Cerca de 3.000 pessoas compareceram a seu ato de meditação pública, mas também foi recebido com honras por políticos.

 

O vice-presidente, Julio Cobos, entregou um prêmio ao guru no Congresso nacional. Com o prefeito, Mauricio Macri, assinou um convênio para ensinar suas técnicas de respiração à futura polícia portenha.

 

O auê político em torno de um líder espiritual fez lembrar a visita do líder espiritual Luis Palau, há dois meses. Próximo do presidente americano, George W. Bush, Palau também foi recebido e festejado por aqui por Macri e Cobos.

 

Reproduzo abaixo o texto que fiz sobre a visita, no dia 14 de março, que acabou não saindo no jornal.

 

     “Enquanto a imprensa argentina se lamenta de que a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, tenha ignorado a Argentina em sua viagem pela América do Sul, os governantes argentinos se preocupam em dar as boas-vindas a um visitante mais popular.

 

     Nessa semana, Luis Palau foi recebido, em Buenos Aires, pelo vice-presidente argentino, Julio Cobos, pelo prefeito da cidade, Mauricio Macri, por deputados de diferentes partidos e também por empresários. Em outras ocasiões, já esteve com o presidente americano, George W. Bush, e com o ex-mandatário Bill Clinton.

 

     Se fosse Condoleezza, nenhuma surpresa. Tamanha receptividade impressiona porque Luis Palau, 73, é um pastor evangélico.

Nascido na Argentina, Palau se mudou nos anos 60 para os EUA onde ganhou fama. Considerado o líder evangélico mais importante da América Latina, viaja promovendo seus “festivais”, espécie de show religioso que reúne multidões misturando a pregação a apresentações de artistas locais.

 

     Na capital argentina, o festival de ontem, fechou a avenida Nove de Julho, a principal do país, das 18h à 0h30, previa reunir entre 500 mil e um milhão de pessoas e atrapalhou o trânsito nas ruas da cidade, mais acostumadas a protestos. O fenômeno deve se repetir hoje na segunda edição do evento.

Segundo a Associação Luis Palau, o pastor já apresentou seus festivais a 22 milhões de pessoas em 80 países do mundo. Em Buenos Aires, foi declarado pela prefeitura como ato “de interesse nacional”.

 

     Como parte de sua estratégia de marketing religioso, em cada país onde chega, tem encontros marcados com governantes locais. Por aqui, dizem as más línguas que teria sido ignorado pela presidente Cristina Kirchner. Nos EUA, no entanto, merece tratamento especial. Esteve ao menos seis vezes na Casa Branca. Foi convidado por Bush para visitarem juntos uma igreja em Pequim em 2005 e dizem que os dois fariam parte do mesmo grupo de oração apesar de seu assessor, Alberto Avila, afirmar que “é mais amigo de Clinton que de Bush”.

 

     À Folha, Avila disse, pouco antes do início do festival, que o pastor sempre se reúne com políticos nas cidades que visita “para conversar com eles e orar por eles”. Mas com a reportagem Palau não pôde orar nem conversar. Tinha que se preparar para o show.”

 

      

     Sri Sri Ravi Shankar com o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, com quem assinou convênios

Escrito por Adriana Küchler às 20h15

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Cristina no País das Maravilhas

Tomás Eloy Martínez, um dos melhores escritores para quem quer ser bem apresentado à cultura, à história e às ruas da Argentina e de Buenos Aires, faz, em sua coluna de hoje do jornal “La Nación”, um paralelo entre a presidente argentina, Cristina Kirchner, e a história de Alice, a heroína de Lewis Carroll que conhece um novo mundo do outro lado do espelho.

 

O autor compara o ex-presidente Nestor Kirchner “à autoridade que dita a sentença primeiro e ouve o veredito depois”. E diz que o povo argentino esperava que Cristina fosse o outro lado do espelho. “Parecia a governante adequada para expandir as fronteiras nacionais e instalar a Argentina no lugar de importância maior que determinavam sua cultura e sua economia em expansão.”

 

Nada disso aconteceu, escreve Martínez, e Cristina atribui os problemas “às más notícias dos meios de oposição”. “Parece supor que toda verdade distinta de sua verdade equivale a uma traição que merece ser castigada.”  Cortem-lhe a cabeça!

 

Como afirma Martínez, a literatura bem lida costuma ser a meditação mais lúcida sobre os desatinos da realidade.

 

Escrito por Adriana Küchler às 03h21

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Invejinha

As visitas recentes de chefes e representantes de Estado ao Brasil e a outros países da América do Sul têm despertado uma invejinha na Argentina, ignorada pelos visitantes.

 

Há dois meses foi a chegada da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, ao Brasil e ao Chile que incomodou os argentinos. Poderia ser uma mania de perseguição local, mas o “New York Times” fez questão de afirmar que a “omissão” da Argentina no itinerário tinha a ver com a “decepção” de Washington com o novo governo de Cristina Kirchner que continuaria a aprofundar os laços com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

 

Para o presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue, entrevistado pelo jornal, "os EUA estão claramente esnobando a Argentina". O “New York Times” ainda lembrou que Bush também pulou a Argentina numa viagem à região em 2007, em que esteve no Brasil e no Uruguai. E que, enquanto isso, a Argentina servia de palco a um evento anti-Bush, liderado por Chávez.

 

Agora, é a não-visita da chanceler alemã, Angela Merkel, que volta a assombrar os argentinos. A caminho da cúpula de chefes de Estado em Lima, Merkel passou pelo Brasil. A presidente Cristina, no entanto, só vai se encontrar com a chanceler no Peru.

 

Hoje, já não vêm de fora as críticas à falta de receptividade local. O “Clarín” de hoje, sob o título “Desde Rice a Merkel, os líderes estrangeiros preferem o Brasil”, afirma que a Argentina “parece cada vez mais isolada da agenda internacional”.

 

O jornal cita um funcionário europeu (sem dizer seu nome) que justificou que o país “já não tem a importância econômica” que teve como exportador de carne e que “deixou de ter credibilidade”.

 

Cristina Kirchner, Hugo Chávez e Néstor Kirchner

Escrito por Adriana Küchler às 00h58

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Dois meses de loucura

O conflito entre o governo argentino e o setor agropecuário completou dois meses nesta semana e não parece que tenha hora para acabar. Sem um canal de diálogo -o campo voltou ao locaute e o governo chama os produtores de loucos-, é difícil dizer quem tem razão.

 

Em 11 de março, o governo aumentou os impostos às exportações de soja e girassol. Os produtores, indignados, decidiram parar de vender seus produtos e bloquear as estradas.

 

O país mais carnívoro do mundo ficou sem carne. Os panelaços da classe média, que não se viam desde aqueles que ajudaram a derrubar o presidente Fernando de la Rúa em 2001, voltaram às ruas de Buenos Aires.

 

Desde então, caiu um ministro da Economia, o campo deu uma trégua ao governo que logo acabou, um produtor agropecuário virou ídolo nacional.

 

A falta de comida fez os preços dispararem, faltaram combustíveis, a presidente Cristina fez vários discursos. A tocha olímpica, uma nuvem de fumaça e um meteorito passaram por aqui.

 

Foram meus primeiros meses em Buenos Aires, e achava que eu é que não estava acostumada a essa agenda intensa dos argentinos.

 

Mas, segundo o programa analítico “Palavras Mais Palavras Menos”, do canal de notícias TN, foram mesmo dois meses de loucura. Em um vídeo transmitido ontem, o programa tentou explicar tudo o que aconteceu nesse período em três minutos (para quem entende espanhol).

 

Escrito por Adriana Küchler às 21h13

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Terça-feira 13

Na Argentina, não é a sexta-feira e sim a terça-feira 13 (hoje) o dia do azar. Aqui, há até um ditado para o dia: “13 Martes ni te cases ni te embarques” (Terça 13, não se case nem viaje).

 

Segundo sites especializados em mitologia, astrologia e afins, a superstição está ligada a que martes (terça-feira em espanhol) vem de Marte, deus da Guerra. Um deles informa que tem tredecafobia (ou triscaidecafobia) aquele que sofre de pavor do número 13.

 

Para os sites, o Brasil está perdido no mundo das superstições, já que os países de cultura latina temeriam a terça-feira 13, enquanto os de cultura anglo-saxônica adiam a paúra para a sexta.

 

Artigo sobre o tema no jornal espanhol “El País” de hoje ressalta que em países como a Argentina o filme de terror “Sexta-Feira 13” teve que mudar de nome. E que a companhia aérea Ibéria não tem a fila de assentos 13 em seus aviões.

 

Para além das superstições, outras datas comemorativas separam os brasileiros dos argentinos. Aqui, o Dia dos Namorados é comemorado no dia 14 de fevereiro, como em outras tantas culturas, e o Dia das Mães é no terceiro domingo de outubro.

 

Escrito por Adriana Küchler às 17h33

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A mídia mente

Imaginem se um dia São Paulo acordasse repleta de cartazes dizendo que a Folha mente?  E se esses cartazes fossem colados por militantes da “juventude petista”, liderados por um filho de Lula?

 

Isso é o que vem acontecendo em Buenos Aires nos últimos dias. O centro da cidade está tomado por cartazes contra o Clarín, jornal mais vendido no país, e contra o canal de notícias TN, do mesmo grupo. Os cartazes trazem mensagens como “Clarín mente”, “Clarín quer inflação” e “TN = tudo negativo”.

 

Os jovens que pregam os cartazes fazem parte de movimentos peronistas ligados ao governo, como o Juventude Peronista Evita e o La Cámpora , que tem entre seus líderes Máximo Kirchner, filho da atual presidente Cristina e de seu marido e ex-presidente, Néstor.

 

Segundo o Clarín, a campanha contra ele custaria R$ 100 mil por dia. Tido até agora como aliado do governo de Cristina, o Clarín, maior grupo de comunicação do país, virou o principal alvo dos Kirchner em sua batalha contra a imprensa. Como cada discurso da presidente traz uma nova crítica aos meios de comunicação, voltaremos ao tema em breve.

 

        

Escrito por Adriana Küchler às 17h17

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Cultura brasileira para os portenhos

Se existe uma eterna peleia entre brasileiros e argentinos, aqui é possível notar que, em geral, eles são mais abertos e interessados pela nossa cultura do que o contrário. Há duas semanas, o rei Roberto Carlos lotou por três noites a casa de shows Luna Park. "Eu Quero Apenas" (aquela em que canta "Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar") é uma das músicas favoritas dos argentinos.

Esses têm sido dias ricos para os argentinos que se interessam pela cultura brasileira. O show do fim de semana foi o de Adriana Calcanhotto, ontem, no Gran Rex, com direito a capa dos cadernos culturais dos principais jornais do país.

A atração do Malba, um dos principais museus da América Latina, nesses dias, é a exposição Tarsila Viajera, uma retrospectiva de Tarsila do Amaral que já esteve em cartaz na Pinacoteca de São Paulo.

E no cine Village Recoleta está em cartaz, até a próxima quarta, o Cine Fest Brasil-Buenos Aires, só com produções brasileiras recentes, como o ótimo "A Via Láctea", de Lina Chamie, e "Não por Acaso", de Philippe Barcinski.  

 

Roberto Carlos canta "quiero tener un millón de amigos"

Escrito por Adriana Küchler às 16h45

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PERFIL

Adriana Küchler Adriana Küchler, 27, é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e repórter da Folha há três anos. Morou no Rio, em Florianópolis e em São Paulo, antes de aterrissar em Buenos Aires..

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