Tangos e Tragédias
Tangos e Tragédias
 

Don't cry for me, Argentina

     Queridos leitores,

     Os últimos dias em Buenos Aires foram tão intensos que escrevo essa despedida já de São Paulo.

     Nesses nove meses de Argentina, tive a sorte de acompanhar de perto fatos que vão entrar pra história do país: a briga entre o governo e o setor agropecuário, com a volta dos panelaços, bloqueios de estradas e uma mobilização social poucas vezes vista; a derrota do projeto do governo que gerou a tal briga no Senado com o voto de Minerva do próprio vice-presidente, Julio Cobos; a estatização da Aerolíneas Argentinas; a estatização da previdência; a decisão da Argentina de pagar suas dívidas com o Clube de Paris e outros credores (interrompida pela crise); a escolha de Maradona como técnico da seleção local... e tantas outras.

     Passei por momentos inusitados ao ser apresentada ao presidente Lula pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez. E também ao provocar a ira da presidente Cristina Kirchner com uma pergunta indesejada (a única de um jornalista brasileiro) em meio à sua primeira e única coletiva de imprensa como presidente.

     Tive também a honra de ser a primeira correspondente da Folha na Argentina a ter seu blog e poder compartilhar impressões e idéias sobre os fatos e o povo argentino com brasileiros que se interessam pela Argentina e argentinos interessados em saber o que os brasileiros pensam deles.

     Além da minha varanda com vista para Paris, dos parques, bares, cafés, sorvetes, doces de leite e polêmicas argentinas, o blog é uma das coisas das quais mais vou sentir falta.

     Queria agradecer a todos os comentários e e-mails recebidos, àqueles que elogiaram, que contestaram, que acrescentaram mais informações aos temas e àqueles que confiaram em mim como fonte de dicas para suas viagens e passeios.

     Enquanto não tiver a chance de escrever meu próprio guia, estou à disposição para continuar disseminando os bons lugares de mi Buenos Aires querido. Mas agora saio de férias.

     Com este último post, les dejo un cariño. Que sean felices y coman perdices. Hasta la vista.

    

    


Escrito por Adriana Küchler às 20h36

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Nuevos Aires

     Abaixo, textos publicados na edição de hoje do caderno de Turismo da Folha sobre duas novidades de Buenos Aires, a inauguração da Coleção de Arte Amalia Lacroze de Fortabat, em Puerto Madero, e a reabertura da Fundación Proa, na Boca.

Klimt, Chagall e Miró vão a Puerto Madero

Bairro inaugura a Coleção de Arte Amalia Lacroze de Fortabat com 230 peças da empresária argentina

ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Além de ter os apartamentos mais caros, os restaurantes mais grã-finos e alguns dos hotéis mais chiques de Buenos Aires, o bairro de Puerto Madero incluiu recentemente em seu currículo um museu à altura de suas outras atrações.
Aberto há duas semanas, o novo ponto turístico tem nome e sobrenome, Coleção de Arte Amalia Lacroze de Fortabat.
Amalia é uma das principais empresárias e colecionadoras de arte da Argentina e decidiu partilhar sua pinacoteca privada com portenhos e turistas.
Na coleção de 230 peças, estão obras de artistas como Salvador Dalí, Rodin, Klimt, Chagall, Andy Warhol, Miró, Xul Solar e Antonio Berni.
Os xodós da coleção são dois.
"Julieta e sua Aia" (1836), do pintor inglês William Turner, com suas incríveis luzes douradas, foi arrematado por US$ 7 milhões em um leilão e rendeu citação a Amalia no "New York Times", como a "dama de branco sul-americana" que ficou com a peça. Saiu de cima da lareira da mecenas e ganhou destaque no museu.
A outra peça rara é o "O Censo em Belém", do flamengo Peter Brueghel, o Jovem, o preferido da dama. Outro óleo que atrai olhares é o que retrata a própria Amalia (1980) como vista pela lente colorida e pop do americano Andy Warhol.
Uma visita ao museu também dá a chance de ser apresentado a pintores argentinos.
Há vários exemplares de Xul Solar, artista que inventou sua própria língua, foi influenciado pela astrologia e pelo esoterismo. Antonio Berni também está representado. Chama a atenção o óleo "A Defunta Correa", mistura de pintura e instalação, com direito a um "funeral" com velas e flores no chão do museu.
Desde que o financista Eduardo Costantini abriu ao público sua coleção em 2001, no celebrado Malba, é a primeira vez que um mecenas se exibe assim na Argentina. Mas, ao contrário do Malba, pensado como uma casa da arte recente latino-americana, a coleção Fortabat mescla épocas, nacionalidades e estilos, juntando ainda máscaras egípcias, vasos gregos e um mosaico bizantino.
O museu tem quatro andares e 6.800 2 -e é outra obra de arte. Projeto do uruguaio radicado em Nova York Rafael Viñoly, é feito em aço e vidro para privilegiar a vista para o rio e os diques de Puerto Madero.


COLEÇÃO DE ARTE AMALIA LACROZE DE FORTABAT
Rua Olga Cossettini 141; tel.: 00/ xx/54/11/4310-6600
www.coleccionfortabat.org.ar

Dama da coleção é rica, pop e controversa

Retratada pelo artista Andy Warhol, empresária é acusada de vínculos com a última ditadura do país

DE BUENOS AIRES

Amalia Lacroze de Fortabat, 87, dona do novo museu de Buenos Aires e conhecida como a mulher mais rica do país, é uma figura tão famosa quanto controversa na Argentina.
Mais conhecida como Amalita, a viúva do empresário Alfredo Fortabat (1894-1976), fundador das fábricas de cimento Loma Negra, herdou uma das principais fortunas do país. Há três anos, diante de problemas financeiros, foi obrigada a vender a empresa para o grupo brasileiro Camargo Corrêa.
A grave crise econômica que atingiu a Argentina em 2001 também atrasou a concretização do museu, que era um sonho da milionária desde o fim dos anos 90. E ainda a obrigou a vender 20 obras de arte dignas de estar em seu sonho, de Degas, Gauguin e Miró.
"Fui erguendo o museu à medida em que entrou dinheiro", disse a empresária à imprensa local no lançamento da coleção.
A paixão pela arte, conta a mecenas, surgiu aos 11 anos, quando se encantou por um quadro pré-rafaelita. E essa paixão a seguiu pela vida. Bem-nascida e casada com um dos principais empresários do país, a dama freqüentava o high-society argentino e internacional.
Foi grande amiga do pintor Antonio Berni, a quem ajudou na restauração dos murais das Galerias Pacífico, outro ponto turístico de Buenos Aires. Em troca, o artista lhe presenteou com retratos dos três netos de Amalia, expostos no museu.
A amizade com Andy Warhol era colorida. Ela tem mais duas versões de seu retrato feitas pelo artista, além da que está exposta no museu. "Acho que ele estava apaixonado por mim", justificou, ao afirmar que nunca posou para Warhol.
Apesar da paixão pela arte, Amalita se viu envolvida em uma polêmica há 11 anos, quando o prêmio literário da fundação que leva seu nome foi concedido ao livro "O Anatomista", de Federico Andahazi, sobre a descoberta do clitóris.
Ao saber da novidade, ela se recusou a entregar o prêmio de US$ 15 mil e classificou o livro de "obsceno e medíocre".

Ligações perigosas
Amalita é acusada por grupos de esquerda de vínculos com a última e violenta ditadura argentina (1976-1983). Esses grupos planejavam fazer um protesto quando o museu fosse inaugurado, mas o lançamento demorou tanto que os piqueteiros perderam a motivação.
Apesar de sua fortuna ter disparado devido a grandes contratos durante o regime militar, Amalia também foi beneficiada por outros governos.
O ex-presidente Carlos Menem (1989-1999) a declarou embaixadora extraordinária e deu a ela o comando do Fundo Nacional de Artes.
Outro ex-presidente, Néstor Kirchner (2003-2007), destituiu a empresária do cargo de embaixadora. Hoje, sem intimidade com o governo atual, reclama a criação de uma lei de mecenato no país.
Apesar do pedido, Amalia diz que não tem vontade de comprar outras obras porque ainda tem guardadas tantas que encheriam outro museu. Dizem que seriam 4.000, espalhadas por suas várias casas na Argentina e nos EUA. (ADRIANA KÜCHLER)

Fundação Proa abre prédio ampliado com mostra de Duchamp

Centro de arte contemporânea volta a abrir as portas no dia 22, depois de passar mais de um ano fechado

Divulgação
NOVA FACE
Perspectiva artística da fachada da Fundação Proa, que passou por ampliação e será reaberto neste mês; o espaço fica no bairro La Boca


DE BUENOS AIRES

O circuito de arte argentino deixou para mostrar todas as suas fichas no fim do ano. Além do novo museu de Puerto Madero, os turistas interessados em arte terão outra parada obrigatória a partir do dia 22, quando reabre, no bairro da Boca, a Fundação Proa.
O centro de arte contemporânea, um dos pólos dos artistas de vanguarda locais, foi inaugurado em 1996 e ficou fechado por mais de um ano para obras de ampliação comandadas pelo estúdio de arquitetura italiano Caruso-Torricella.
Para a reestréia, a fundação apresenta a mostra "Marcel Duchamp, Uma Obra Que Não É Uma Obra de Arte", com curadoria de Elena Filipovic, organizada em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, que exibiu a exposição.
Quem perdeu ou quer rever a mostra que também passou pelo Brasil poderá conferir na Fundação Proa, até fevereiro de 2009, as obras mais emblemáticas do artista francês que revolucionou a arte ao tirar um vaso sanitário do banheiro e chamá-lo de fonte. E que, em 2000, foi eleito por 500 críticos britânicos como o artista mais influente do século 20.

A lei do arbitrário
Essa será a primeira grande mostra de Duchamp (1887-1968) em Buenos Aires, mas a história do artista com a cidade é mais antiga. Ele viveu nove meses na capital argentina, entre 1918 e 1919, tentando escapar do alistamento militar nos Estados Unidos.
Na cidade, seu principal passatempo era jogar partidas de xadrez e construir as peças de seu próprio tabuleiro.
Segundo escreveu o autor argentino Julio Cortázar (1914-1984), "por misteriosa que pareça, essa viagem [de Duchamp] respondeu à lei do arbitrário" e ligou o artista para sempre com a cidade.
Além de exibir os célebres "headymade" de Duchamp, nos dias 20 e 21, o centro cultural ainda promove um grande seminário internacional sobre a obra e a influência exercida pelo criador. E, nos dias 27 e 28, será apresentada a obra musical de Duchamp, a cargo do flautista tcheco Petr Kotik.

Aberto ao bairro
O novo prédio da Fundação Proa mistura o tradicional e o contemporâneo, já que ao edifício antigo foram incorporadas duas casas vizinhas em construções transparentes, que ligam o espaço ainda mais ao colorido bairro da Boca.
Com a ampliação, a Proa terá mais espaço para exposições e um novo auditório para conferências e para a apresentação de filmes e videoarte. (ADRIANA KÜCHLER)


FUNDAÇÃO PROA
Av. Pedro de Mendoza, 1.929; tel. 00/xx/54/11/4104-1000
www.proa.org

E mais: Mais museus

          Concurso para eleger novo "cartão-postal" da cidade em 2010 tem três finalistas

          Nuevos Aires: Peça tenta explicar o peronismo por meio da comédia

         

         

Escrito por Adriana Küchler às 18h07

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Maradona, uma unanimidade questionável

     Maradona é uma unanimidade entre os argentinos quando o tema é quem seria o melhor jogador de futebol da história. No entanto, como novo treinador da seleção argentina, "el Diego" não ganhou o apoio da torcida.

     No dia em que o próprio Maradona anunciou que seria o técnico, numa típica atitude maradoniana, os torcedores saíram a reclamar. Em uma votação do site do jornal “Clarín”, 73,9% dos consultados afirmou que não concordava com a designação do craque para comandar a seleção, enquanto a decisão foi considerada “errada” por 72,64% dos leitores do jornal “La Nación” e “questionável” por outros 11,31%.

     Mas a internet é um terreno fácil para esse tipo de críticas. Publicamente, todas as figuras futebolísticas desse e de outros países aplaudiram a decisão de promover Maradona ao cargo de técnico. O único que fez críticas leves à falta de experiência do jogador como treinador foi o atrevido jogador argentino Marcos Sebastián Aguirre, do Real Valladolid. "Quem?", me perguntou um amigo argentino. Pois é. Só um desconhecido pode criticar "deus".

     Confortável no novo trono, o novo manager da seleção, Carlos Bilardo, que foi o técnico de Maradona na conquista da Copa de 1986, reclamou do excesso de elogios e disse que a imprensa argentina estava pegando muito "flu" (leve) com Maradona e companhia. Como que dizendo que as críticas (injustas?) estimulariam a seleção a se fortalecer. "Quando vem a porrada, é preciso defender-se e aí a seleção se faz forte", disse Bilardo.

     O jornal esportivo "Olé" aceitou o desafio e publicou hoje a manchete "Assim não chegamos ao mundial", com a foto (montada) das "porradas' que Bilardo e Maradona estavam pedindo.

     E ainda tirou sarro da definição de Maradona de que há uma "minicrise" na seleção argentina. "Há uma maxicrise", disse o jornal. "Hoje, a seleção está classificada por pura casualidade. E o novo time fede à naftalina."

 

A pedidos, o jornal "Olé" deu porrada em Maradona e Bilardo

Escrito por Adriana Küchler às 17h46

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Circuito off-turista

     Nunca aconselhamos aqui o Caminito, o Obelisco, o cemitério da Recoleta ou o café Tortoni. Não porque eles não sejam pontos turísticos obrigatórios, mas porque constam em todo e qualquer guia turístico.

    Aí vai mais uma dessas dicas, para quem tem interesse em conhecer outra cara de Buenos Aires.  Se a feira dominical de San Telmo mistura poucos locais e muitos gringos, a de Mataderos (av. de los Corrales e Lisandro de la Torre) infiltra o visitante na profunda cultura local. 

    Ali se apresentam grupos de música e dança folclóricos de diferentes regiões do país, e o público dança animado, no meio da rua, seus cuartetos, chacareras e zambas (se fala samba mesmo, mas não tem nada a ver com o brasileiro). O turista até pode se arriscar, mas as coreografias não são nada simples para bailarinos de primeira viagem.

     Dá para comer comidas regionais, como o locro e a humita, em barraquinhas na rua ou em restaurantes simples. Uma boa pedida é o Bar Oviedo, na esquina central da feira de onde se escuta e se vê todo o movimento.

     Nas barraquinhas da feira artesanal, também é possível comprar vinhos e comidas, roupas e objetos de couro e cerâmica a preços nada turísticos.

   Fotos: Adriana Küchler 

   

Feira de Mataderos, onde artistas se apresentam no palco, e o público, no chão

Escrito por Adriana Küchler às 21h45

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Primeira-filha hot

     Sem poder mais publicar suas farras no fotolog, por ordem da mamãe e do papai Kirchner, Florencia K vive arranjando jeitos de se exibir. A última foi na sua festa de formatura, na boate La City, onde desfilou com outras formandas fantasiadas de "minnie hot".

     De minissaia e barriga de fora, a filha da presidente Cristina Kirchner fez de tudo para driblar os seguranças, mas não as câmeras. Bebeu, fumou e dançou até o chão, ao som de cúmbia e reggaeton.

     Dançou, mas não deu bola pra nenhum dos meninos, apesar dos apelos nos cartazes espalhados pelo clube que diziam "Florchu, deixe de partir corações". Segundo as revistas locais, está cada dia mais parecida com a mãe-presidenta.

     No mesmo dia em que Flor se arrumava e se acabava em sua festa de formatura, sem ligar para o que ia pensar o casal presidencial, Cristina e Néstor Kirchner finalizavam os detalhes do projeto de estatização da previdência. Sem imaginar as conseqüências (e as fotos) que as ações da família naquele dia iam render.    

Fotos: revista Gente

Escrito por Adriana Küchler às 21h46

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Yo, argentino

     "Yo, argentino" é mais uma das argentinices, como aquelas de um post abaixo. Além de "eu, argentino", significa "eu não tenho nada a ver com isso" ou "eu lavo as minhas mãos".

     Às vésperas de deixar este blog e esta cidade, queria compartilhar com os nossos cinco leitores algumas reflexões sobre quem é o argentino, esse ser tão complexo.

     Na falta de uma só definição que se encaixe perfeitamente, decidi expor algumas delas, publicadas no livro "Argentinos - Mitos, manias e milongas", que a amiga Marcia Carmo, correspondente da BBC por aqui, escreveu com Monica Yanakiew.

     Com a devida autorização dada, os argentinos por eles mesmos:

     * "Aqui o esporte nacional é fazer filosofia. Cai o teto da casa, e os argentinos abrem o debate: 'Foi o destino? Foram os políticos? Ou foi nossa culpa, que não soubemos construir o teto?' Analisamos todas as causas e os efeitos, problematizamos o problema. Mas consertar o teto que é bom, nada. E, quando consertamos, cometemos os mesmos erros" - Jorge Telerman, ex-vice-chefe de governo da capital argentina

     * "Os argentinos gostam de falar de seus problemas e têm uma ânsia por se exibir _quando estão muito bem e também quando estão muito mal. Sofrem da combinação de melancolia e neurose" - Gabriel Juri, psicanalista

     * "Sou argentino. Não tenho porque ser um traficante de otimismo" - Jorge Assis, escritor

     * "Os argentinos têm duplo discurso, dupla nacionalidade, duplo passaporte e, quando algum plano econômico valoriza nossa moeda e nos faz sentir mais ricos do que somos, viajamos, esbanjamos, conquistando o apelido de 'deme dos' (me dá dois)" - Maria Laura Avignolo - jornalista

     * "Os argentinos são passionais. Quando se apaixonam, se apaixonam seriamente. Endeusam o ser amado. E, quando percebem o primeiro defeito, sentem uma desilusão enorme. Por isso, oscilam entre o paraíso e o inferno" - Nik, cartunista

     * "A verdade é que nós argentinos somos ciclotímicos" - Sergio Berensztein, professor de relações internacionais da Universidade Torcuato Di Tella

     * "O país está sobrepensado e subexecutado", Rafael Bielsa, ex-chanceler argentino

     * "Os presidentes argentinos não fazem da política uma rotina. Fazem dela uma epopéia" - Julio Maria Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai

     * "Os argentinos nascem com uma sabedoria imanente. Individualmente, se caracterizam por sua simpatia e sua inteligência. Cada um é um gênio e os gênios nunca se dão uns com os outros. Por isso, é fácil reunir argentinos, uni-los jamais" - texto de uma corrente de e-mails que circulava pelo país sob o título "Uma descrição perfeita dos argentinos"

     Cartum: Nik

    

     PS: Para os eventuais três leitores que decidirem reclamar pelo fato de que me vou da Argentina, aviso que não fui demitida pela crise financeira internacional. É que a Folha mantém seus correspondentes em Buenos Aires, e em outras cidades, por nove meses, e os meus estão acabando.

Escrito por Adriana Küchler às 19h24

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Sojas abertas da América Latina

     Abaixo, matéria publicada na Folha de domingo, sobre um empresário argentino que está se espalhando pelo sub-continente por meio da soja.

     Argentino desbrava região à base de soja

"Rei" em seu país, Gustavo Grobocopatel virou moeda de troca na relação Kirchner-Chávez e agora investe no Brasil

Empresário desistiu de negócios na Venezuela por burocracia; na Colômbia, foi convidado a instalar-se pelo próprio presidente Uribe


ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Depois de virar "rei" na Argentina, Gustavo Grobocopatel foi levado pela mão do então presidente Néstor Kirchner a atuar na Venezuela. Não resistiu à burocracia local e começou a espalhar suas sementes pela Colômbia. Mas não sem antes realizar o sonho de alcançar as terras brasileiras.

Na Argentina, Grobocopatel, 47, é chamado de o "rei da soja", maior produtor do país e pioneiro de um movimento de modernização e produtividade agrícola que aos poucos pretende semear pela América do Sul.

O principal objeto de trabalho do grupo Los Grobo é a soja, veículo da retomada econômica argentina nos últimos anos e que fez crescer o olho grande dos países vizinhos.

De seu país foi levado como um rei Midas pelo ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) à Venezuela como parte do pacote de troca de comida (argentina) por petróleo (venezuelano).

Sua missão era "exportar conhecimentos a um povo irmão", o que na prática significava ensinar os venezuelanos a plantar soja usando máquinas argentinas.

Não deu certo. Depois de pouco mais de um ano e 5.000 hectares de soja plantados, Grobocopatel deixou a terra prometida do presidente Hugo Chávez devido à burocracia.

O problema é que o plano quase perfeito caiu nas mãos da empresa petroleira estatal PDVSA, que de soja pouco sabia. "Na Venezuela, a produção agrícola se desarticulou nos últimos 50 anos, vítima do avanço da cultura petroleira. O governo armou filiais da PDVSA para a produção em distintos segmentos da economia para criar concorrência com monopólios privados. Mas eles não tinham experiência", afirma Grobocopatel.

"A dinâmica de uma empresa agrícola não é a mesma de uma petroleira. Exige tomada de decisões rápidas. Se não mudassem a estrutura organizacional, não podíamos ajudá-los", explica ele à Folha, em uma visita rápida à sede de sua empresa, em Buenos Aires. Seu escritório é no campo.

O rei da soja é cuidadoso ao falar sobre suas relações com o poder. Na Colômbia, foi o próprio presidente Álvaro Uribe quem o chamou para conhecer a árida região dos Llanos Orientales e avaliar a possibilidade de a soja crescer ali.

Grobocopatel sobrevoou o território junto com o mandatário colombiano. Imprensa e analistas locais viram imediatamente na movimentação de Uribe um esforço para criar uma alternativa rentável às plantações de coca em seu país.

Grobocopatel, no entanto, não quer nem comentar a possibilidade aventada pela mídia colombiana. Para ele, o motivo do pedido de Uribe é muito mais simples. "Acredito que tenha mais a ver com a questão de abastecer-se de alimentos. Há até poucos meses, essa era a grande preocupação mundial."

Anjo ou demônio
Há poucos meses também, Grobocopatel passou de rei a demônio durante o conflito entre o governo de Cristina Kirchner e o setor agropecuário na Argentina, causado pelo aumento de impostos sobre as exportações de grãos, principalmente a soja, principal produto de exportação argentina.
A única coisa que os dois lados -campo e governo- tinham em comum era demonizar os chamados "pools de plantio", grupos que investem em terras alheias para produzir em grande escala, acusados de concentrar terras, com os quais o empresário é identificado.

"Grobocopatel, em um instante, passou de ser campeão a luzir como demônio. Por obra da necessidade de alguns de viver semeando ódios, pregando a luta de classes", definiu em artigo Emilio Cárdenas, ex-embaixador da Argentina na Organização das Nações Unidas.

Afastado da disputa, Grobocopatel não se diz herói nem vilão. Acredita apenas que, na raiz do conflito do campo, está um grave problema da sociedade argentina. "O debate se deu nas estradas e nas praças, em vez de acontecer nos lugares adequados para uma discussão. Os locautes mostram o fracasso de uma sociedade em dialogar."

Brasil
No meio de tanta confusão, o argentino encontrou um refúgio em terra estrangeira, o Brasil. Vê o país, onde atua com o fundo de investimentos PCP, formado por sócios do antigo banco Pactual, como o maior potencial para expandir seus negócios.

E esnoba a recente preocupação local com a propriedade de terras por estrangeiros. "Não acredito que estrangeiros ponham em perigo a soberania nacional. Se há dinheiro para investir, isso vai gerar mais lucros para o Brasil."

Ainda assim, o empresário se declara um "sem-terra"; somente é dono de cerca de 5% das que gerencia: 120 mil hectares na Argentina, 70 mil no Uruguai, 40 mil no Brasil e 25 mil no Paraguai.

Diante da preocupação geral dos países da região com um freio na economia global e com a queda no preço dos alimentos, seus produtos de exportação, o empresário sugere que quem é rei nunca perde a majestade. "Com o tempo, os preços vão voltar a subir. Se não subirem, não haverá alimentos, porque as pessoas vão parar de produzir."

Foto: Clarín.com

Grobocopatel, o rei da soja argentino, com seu "escritório" no campo

 

Escrito por Adriana Küchler às 12h26

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver para ler

   O programa mais interessante da TV argentina (depois que a novela "Lalola" terminou) é o "Ver para Leer". Ele mesmo se define como "o primeiro programa de televisão sobre literatura produzido por um canal privado (Telefe) na Argentina".

     Na prática, é uma ficção de brincadeira feita para divulgar boa literatura. A cada domingo, o programa começa com alguma situação em que se mete o escritor-apresentador-ator Juan Sasturain.

     A situação acaba definindo um tema para o programa (quadrinhos, biografias, tradutores, cinema), e ele se vale da literatura para resolver o problema: consulta escritores, numa mistura de entrevista com atuação, sugere livros relacionados com o tema e despeja dados sobre livros e escritores.

     Pode parecer enfadonho, mas não é nem um pouco. O produto encontrou um formato dinâmico para conseguir transpor uma aula de literatura para a TV sem dar sono e ganhou o prêmio Martín Fierro, o principal da TV argentina, como melhor programa cultural (no mesmo prêmio em que Lalola ganhou nove troféus).

     O mais interessante é que várias partes do programa estão disponíveis na internet: um trecho do episódio, as principais entrevistas, os livros recomendados... Entre os entrevistados estão celebrados escritores, como Alan Pauls, Eduardo GaleanoTomáz Eloy Martínez e até Liniers (nosso conhecido da entrevista uns posts abaixo).

    

     Sasturain dá seus conselhos literários em cenários que misturam objetos reais e desenhados

Escrito por Adriana Küchler às 21h32

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Argentinices

     Ao longo de quase nove meses de Argentina, esse blog vem colhendo suas palavras e expressões argentinas preferidas. Algumas delas podem ajudar o forasteiro a se comunicar, outras são inteligentes, e outras, divertidas e só.

     * Sí o sí (sim ou sim) = obrigatoriamente, de qualquer maneira. Ex: O Boca tem que ganhar hoje sim ou sim.

     * A paso de hombre (a passo de homem) = devagar. Usado normalmente em engarrafamentos. Ex: Os carros estão andando a passo de homem.

     * Te comiste un payaso? (Comeu um palhaço) = engraçadinho.

     * Más solo que Hitler en el Día del Amigo/ Más sólo que Hitler en Once (Mais sozinho que Hitler no Dia do Amigo/Mais sozinho que Hitler no Onze -bairro com grande concentração de judeus) = abandonado. Geralmente usado para políticos em situação complicada.

     * Ponga huevos (ponha ovos/testículos) = seja corajoso, tenha culhão.

      * Inmejorable ('inmelhorável') = Melhor impossível em uma palavra só.

     * Aguinaldo = 13º salário

     * Tarada (idiota) = Usado normalmente para distingüir a loiras exaltadas Ex: Aí vem a "rubia tarada" (loira burra).

     * Boquete (buraco/rombo/túnel) = Aplicado normalmente em tentativas de assalto a banco. Ex.: A polícia descobriu um "bando de boqueteros" enquanto tentavam entrar por um "boquete" na sede do banco x.

     * Fueron felices y comeron perdices (foram felizes e comeram perdizes) = E foram felizes para sempre.

     * Vaquita de san Antonio (vaquinha de santo Antônio) = joaninha.

     * Ojo (olho) = Fique ligado, preste atenção.

     * Viveza criolla (vivacidade criola) = malandragem argentina.

     Imagem: jornal "Clarín"

    

     Jornal detalha como aconteceram dois boquetes de verão

    

Escrito por Adriana Küchler às 23h52

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ternura e transgressão

     Desde que chegou a Buenos Aires, essa repórter vem buscando uma oportunidade de entrevistar o cartunista Liniers, do "La Nación", que, como ele mesmo afirma, traz "uma minicarícia para o leitor" depois das notícias pessimistas do jornal.

    A desculpa perfeita surgiu agora, quando Liniers lança seu primeiro livro no Brasil, com sessões de autógrafos em São Paulo hoje, na HQ Mix e na FNAC de Pinheiros.

     Abaixo, a matéria publicada hoje na Ilustrada [com um parágrafo extra que acabou ficando de fora], a opinião do fotógrafo Tuca Vieira, outro fã de Liniers, e algumas tirinhas de presente. Para acompanhar as "historietas" diariamente, clique aqui.

Cartunista argentino lança livro

Aclamado pela crítica de seu país, Liniers conversa hoje com público em São Paulo sobre "Macanudo 1'

Série compila tirinhas publicadas desde 2002 no jornal argentino "La Nación'; macanudo é gíria para coisas boas, como "bacana"


ADRIANA KÜCHLER
DE BUENOS AIRES

Após um bate-papo e uma sessão rápida de fotos e autógrafos, o artista sai do salão escoltado por seguranças. Os fãs insistem, seguram, correm atrás, não deixam ele sair.

A cena um tanto batida para atores e cantores se repetiu há pouco tempo em Buenos Aires com o tímido cartunista argentino Ricardo Siri, 34, conhecido como Liniers, que ainda não entende como seus desenhos o transformaram em um artista pop. Foram parar em livros, capas de discos e pôsteres de cinema e o colocaram na lista de personalidades do ano da revista argentina "Gente".

Uma explicação curta e grossa foi dada por uma apresentadora de TV: Liniers transgride por meio da ternura. A transgressão através de pingüins, duendes e uma doce menininha será apresentada hoje aos brasileiros, com o lançamento de seu primeiro livro, "Macanudo 1", e com a presença de Liniers, em São Paulo.

Macanudo é a tirinha diária que Liniers publica há seis anos no jornal argentino "La Nación" e também uma antiga gíria para coisas positivas, como "supimpa" ou "bacana".

"Comecei a publicar a tirinha em 2002, em plena crise econômica argentina. Os jornais eram muito pessimistas. A idéia então era que, depois das notícias, "caem as Bolsas", "vamos invadir o Iraque", houvesse como uma minicarícia para o leitor", explica Liniers à Folha.

Coleção de personagens
O cartunista chegou ao "La Nación" por indicação da conterrânea Maitena e, com o caminho aberto por ela e por Quino, o pai de Mafalda, começou a publicar também no exterior.

"Maitena trata de um tema universal de maneira tão engraçada, que para mim era óbvio que funcionaria. Em qualquer lado, as mulheres estão loucas", argumenta. "Mas a minha tira é tão pessoal, que não imaginava funcionando bem nem aqui na Argentina. Por aí se vê que as pessoas são mais estranhas do que eu pensava."

Seus livros já foram publicados na Espanha, no Peru, na França e no Canadá. Liniers não se preocupa com possíveis perdas na tradução. "Em "Macanudo 1", por exemplo, há uma piada muito local e futebolística. Outras histórias são estranhas. Não sei o que os leitores podem entender. Mas vão tirar suas próprias conclusões. E, de repente, a piada fica melhor."

Liniers tem uma coleção de personagens, em que extravasa diferentes tipos de humor. A menina Enriqueta é uma Mafalda às avessas. Para o absurdo, usa os duendes. Para o humor negro, a azeitona.

Os quadrinhos brasileiros chegam a Liniers de uma forma especial. É que numa viagem à Antártida, a que foi convidado porque também desenha pingüins, conheceu o navegador Amyr Klink e sua mulher. "Marina Klink virou minha "dealer" de quadrinhos. Uma vez por ano, junta 800 recortes e me manda um envelope cheio de quadrinhos brasileiros."

Entre seus preferidos estão Adão Iturrusgarai, Angeli e Allan Sieber. E ele é fã, há anos, do gaúcho Fabio Zimbres.

[Aos próprios fãs, Liniers prepara uma recompensa: está desenhando à mão, uma a uma, as capas da primeira edição de seu novo livro, "Macanudo 6". A obra ainda não tem data de lançamento. Chega às lojas assim que ele acabar de desenhar umas 3.000.]


MACANUDO 1
Editora: Zarabatana
Quanto: R$ 25, em média; 96 págs
Lançamento: livraria HQ Mix (pça. Roosevelt, 142, tel. 0/xx/11 3259.1528), com sessão de autógrafos entre 14h e 17h; FNAC (av. Pedroso de Morais, 858, tel. 0/xx/11 3579.2000), com bate-papo entre 19h e 20h30
Classificação: livre

     comentário

Humor poético marca tirinhas de Liniers

TUCA VIEIRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O retângulo consagrado da tirinha é talvez o formato mais universal das histórias em quadrinhos. No eixo Brasil-Argentina, a "comic strip" se desenvolveu de forma extraordinária nos últimos 40 anos e criou personagens lendários como Mafalda e Rê Bordosa.

Pois essa tradição continua em boas mãos. Liniers domina como poucos esse espaço limitado.

O próprio formato parece ser um de seus personagens, tanto pelas molduras que envolvem as tirinhas quanto pelas infinitas formas gráficas de dividir a narrativa.

Seus seres solitários e simpáticos carregam um humor poético nem sempre inocente. Liniers, como bom cartunista argentino, não deixa de se posicionar diante do vazio ideológico do mundo.

Seus personagens são como vítimas conformadas de uma condição inexorável, que se pode suportar apenas por meio da ironia e da beleza. "Macanudo" enfim chega a nós.

Nem bem foi lançado e já parece um clássico.


TUCA VIEIRA é fotógrafo

Escrito por Adriana Küchler às 11h38

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Buenos Aires étnica

     Como quem lê esse blog há algum tempo deve saber, nem só de carne vive o argentino, mas de muitas outras comidas gostosas. E, como faz tempo que não dou dicas dos ótimos restaurantes que freqüento aqui, vai toda uma leva de uma vez só.

    Alguns portenhos e gringos que vivem por aqui classificam como "comida étnica" todo restaurante que não se encaixa nas categorias argentina, italiana, francesa ou contemporânea. No pacote, entram árabes, indianos, tailandeses e afins.

     Um dos melhores dessa leva é o Sarkis (Thames, 1.101). A indicação me chegou na mesma semana por meio do colega Ari Peixoto, correspondente da Globo, e de dois taxistas. Pra ver como a coisa é eclética, no cardápio, se misturam pratos das culinárias árabe, armênia, grega...

     A moussaka, uma espécie de lasanha de berinjela, de carne ou vegetariana, dá e quase sobra pra duas pessoas. Como os pratos são muito baratos, você ainda pode degustar as pastas _hummus, babaganush_ e rir com o simpático garçom que gosta de repetir a palavra berinjela.

     O El Manto (Costa Rica, 5.801) também tem hummus e babaganush, mas numa atmosfera menos descontraída e quase mística. A comida armênia é uma delícia, mas a surpresa está nos drinques como o daiquiri de manjericão ou o mojito de maracujá. Alguns dias da semana, há leitura de borra de café. Quem fizer registre aqui porque este blog teve o azar de visitar o restaurante no dia em que a leitora não estava.

    

     El Manto - foto site Diversica

     Na frente do El Manto, o Green Bamboo (Costa Rica, 5.802) é daqueles que não tem só comida boa, mas badalação. Para a experiência de comer pratos vietnamitas, como o curry de mariscos com leite de coco, ser completa, é preciso sentar em sofás baixinhos ou em almofadas no chão. Vale o esforço.

    

     Green Bamboo - foto site do restaurante

     Já o Mumbai (Honduras, 5,684), é um indiano simpaticíssimo e com opções deliciosas. Deixe o garçom explicar pra você com calma a diferença entre o frango com curry ou o curry de frango, enquanto decide se vai querer o prato "muito picante", "picante" ou "argentino". É que os portenhos são, em geral, avessos ao paladar picante, e os garçons já sabem que devem maneirar na pimenta deles se não quiserem ver ninguém passando mal.

Escrito por Adriana Küchler às 20h31

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Narcoblog

     O assassinato de três jovens empresários argentinos provocou uma grande investigação sobre o tráfico de efedrina para a produção de drogas sintéticas. Se o agora famoso "narcocrime" é tão assustador quanto "aburrido" (chato), essa semana surgiu uma das primeiras notícias interessantes sobre o caso.

     É que a filha do mexicano Jesús Martínez Espinoza, um dos principais acusados pelo tráfico de efedrina, criou um site para defender o pai. Longe de parecer o líder de um grupo de narcotraficantes que dizem que ele é, em JesúsMartínezEspinoza.com, o mexicano aparece em fotos de família, de viagem, de casamento.  

     Diz o texto que Espinoza "chegou à Argentina encantado pelo seu potencial de recursos e negócios", mas que "lamentavelmente teve a desgraça de encontrar-se com pessoas do país que o levaram a envolver-se em temas que lhe são alheios, como a morte de três rapazes e o tráfico de efedrina".

     Explica ainda que antes de ser detido no Paraguai e de ter a extradição pedida pela Argentina, Espinoza estava trabalhando no projeto de uma fundação para a terceira idade.

     Aos que se sensibilizaram, o site oferece a "Camiseta da Justiça" para quem quiser levar no peito a causa de Espinoza. Nas cores preta e branca, vêm em seis tamanhos, até o XXXG, e trazem a foto de Espinoza entre as bandeiras do México e da Argentina, por US$ 17.

     Foto: site infobae.com

    

     Fotos: JesúsMartínezEspinoza.com

    

    

     Espinoza nas versões ficha de cadeia, bonachão e na Camiseta da Justiça

Escrito por Adriana Küchler às 00h04

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Para entender a crise

     O "CQC" argentino, pai do programa brasileiro e das poucas coisas boas que há para ver na TV local, fez um vídeo no estilo "Crisis for dummies" (crise para idiotas). Entre outras coisas, explicam o que é sistema e resgate financeiro, bolha (burbuja) e clima de negócios.

     Dizem que aqueles que incentivavam outros países a privatizar agora saíram a comprar bancos quebrados. "Como isso não funcionou, esses tipos pediram que o Estado comprasse seus papéis falsos para não ter que devolver o dinheiro que ganharam."

     Os tais US$ 700 bilhões do resgate, diz o vídeo, saem do bolso dos eleitores. Enquanto isso, no mundo há 862 milhões de pessoas que não estão comendo bem e, com US$ 30 bilhões, seria possível cobrir suas necessidades.

     O vídeo é em espanhol, mas bem simples de entender. Minhas desculpas se acaso o programa brasileiro já tenha reproduzido o vídeo. Encontrei apenas a versão argentina e a espanhola.

    

Escrito por Adriana Küchler às 22h21

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A neta de McCain é minha vizinha

     Ainda não esbarrei com ela na rua, mas Caroline, neta do candidato republicano às eleições americanas, John McCain, também vive aqui na Recoleta. Caroline, 20, fugiu da campanha americana e há três meses passeava, como outra de tantas intercambistas gringas, pelas ruas de Buenos Aires sem ninguém saber quem era.

     Quem decidiu revelar sua identidade foi um seu professor de "análise internacional da notícia" (sim, ela estuda jornalismo), que também escreve para o jornal "Perfil".

     Ativa, a garota McCain se opõe à guerra no Iraque, cursa três universidades na capital argentina e já sabia falar espanhol "porque serve para encontrar os melhores trabalhos nos EUA", disse em entrevista ao professor. Na Universidade Católica, ela assiste a aulas sobre as origens do peronismo. E, para a alegria dos argentinos, declarou que o filme "Evita", com Madonna, é "malísimo" (horrível).

     Ao contrário do vovô McCain, que se ligou ao Brasil por uma namorada, Caroline veio parar em Buenos Aires por conselho de uma amiga, que lhe recomendou "a cidade mais européia da América do Sul". E já recomendou ao vô que venha conhecer o país também.

     Caroline já votou no avô, mas, por incrível que pareça, a decisão não foi óbvia. "Não sou republicana, sou independente. Também gosto muito da campanha dos democratas (...) Se a eleição fosse entre Obama e Bush, eu votaria nos democratas."

     Na UBA, a maior universidade pública do país, onde participa de um seminário sobre globalização, Caroline vem levando alguns sustos. "Estou escutando coisas muito fortes sobre os EUA e sua relação com a América Latina. Acho que estou começando a entender que meu país cometeu alguns erros nessa região."

     Em campanha pela família, Caroline revela o lado doce de McCain, que ele lhe cantava "Sweet Caroline", de Neil Diamond, e não gostava de ser chamado de vovô; preferia carcamano.

     Foto: jornal Perfil

    

     Caroline McCain acha Obama carismático, mas votou no avô carcamano

Escrito por Adriana Küchler às 20h54

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Sem tetas não há paraíso

            A nova moda em discotecas argentinas (os chamados “boliches”) é sortear “lolas nuevas” entre os baladeiros. Lolas por aqui são peitos. Ou seja, sorteiam cirurgias de implantes de silicone gratuitas.

 

            A prática foi registrada em boates das Províncias de Buenos Aires, La Rioja, San Juan e Córdoba e visa atrair mais público feminino para as festas.

 

            Com o slogan “Quiero mis lolas”, o clube Aqua, de La Rioja, é um dos pioneiros da promoção. As garotas vão à loucura sabendo que podem aumentar os peitos pela módica quantia de 30 pesos (R$ 21), que é quanto vale, em média, a entrada na disco.

 

            Associações de cirurgiões plásticos já se pronunciaram contra os sorteios, alegando que não dá para rifar um implante como se fosse um eletrodoméstico. E as conseqüências já chegaram, claro.

 

            Na Província de Buenos Aires, o sorteio de “lolas” já foi proibido. Em La Rioja, garantem que a proibição virá em breve.

          

           Mas, enquanto isso, o ex-prefeito de Chilecito, em La Rioja, decidiu entrar na moda e lançou uma rifa de peitos para custear sua campanha para deputado no ano que vem. O nome do espertinho: Jorge Robador.

 

            Em tempo, o título deste post vem de uma novela colombiana transmitida por aqui. Na trama, uma jovem que sonha em colocar silicone para se dar bem na vida e acaba se envolvendo com traficantes.

 

            Para poupar o esforço de quem ficou curioso em assistir à novela, no final, a protagonista canta uma música exaltando as alegrias da vida que se podem conquistar sem dinheiro.

 

         

          Jorge Robador e o recibo da rifa que troca o sonho de "lolas nuevas" por fundos de campanha

Escrito por Adriana Küchler às 21h00

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Adriana Küchler Adriana Küchler, 27, é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e repórter da Folha há três anos. Morou no Rio, em Florianópolis e em São Paulo, antes de aterrissar em Buenos Aires..

SITES RELACIONADOS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.